A Primeira Vez Foi Essa Talvez



O sexo sempre é praticado à margem. É na noite que os “doentes” se saciam. Mas eu não fui tão inocente assim. No íntimo havia alguma alguma interrogação. O rapaz me levou para o fundo de um quintal, e até aqui tudo ainda estava no terreno da perfeição. Eu pensava assim: - “Quando eu casar, vou comer a minha mulher com um modess envolta do pau para o menino nascer gordo.” Agora havia um cacete duro, doido para entrar em mim. O cara estava decidido a me foder. Senti tesão, medo, febre, tudo ao mesmo tempo. Os pais deveriam ensinar aos filhos desde cedo, o significado do sexo. Muitas coisas poderiam ser evitadas com uma simples ameaça da criança: - “Vou dizer para o meu pai.” Mas são as crianças quem mais temem dizer a verdade. Assuntos proibidos são recusados. Não só as meninas, os meninos também estão exposto ao sexo na rua, quando não, dentro do próprio lar. Quando acontecesse isso entre duas crianças da mesma idade é natural, mas entre um adulto e uma criança, não é. Quando é assim, entra a indução... A ignorância dos pais, o machismo permite a defesa do hímem da menina, depois da adolescente, isso perdura até o pai entregá-la para o futuro marido que continua a vigiá-la em uma disputa desigual. Já com os meninios não acontece a mesma coisa, geralmente os pais pensam que o único crime social que os filhos podem defrontar-se é com as drogas. O sexo fora de hora é um crime cruelmente pior. É bom saber que todas as crianças assediadas acabam cedendo de uma forma ou de outra. É preciso ainda saber onde estão so vigilantes da hora? Os meninos maiores que brincavam com a gente partiram em minha defesa. Para os meus valores só eu havia pecado. Não deixava de ser um ato vergonhoso! Eu jurei levar esse segredo para o túmulo e sepultá-lo. Mas a história se espalhou e não tive o menor controle sobre isso.

.... , e foi assim. Eu perdi a minha inocência(?) em um fundo de quintal fedido, no meio do lixo como se eu fosse um porco ou outro bicho da espécie a perder a virgindade sem a menor estrutura. Tudo acontecendo na hora errada. Na clandestinidade. É assim a primeira vez de todo “viado.” Uma espécie que é vista como: marginal, doente, geni, verme, pulha, sub-raça. É assim que se é vista... não? Mas dentro de todos sse elementos existe uma criança corrompida, mal amada, porque assim é o resto da humanidade. A sordidez toca a vapor. A minha febre não deveria ter passado assim, e não passou, ficu interna como esse segredo que jurei levar para o túmulo. Não recordo muita coisa desse período, o tempo passava aparentemente normal. Eu não tinha amigos. A minha família fazia lembrar uma expressão que Nelson Rodriguês usou em – Bonitinha, mas ordinária: “Toda família tem um momento, um momento em que começa a apodrecer. Percebeu? Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. E lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.” Eu não tinha completado ainda dez anos... sabe o que o meu pai disse? Disse que se eu não fosse baitola quando crescesse era muita sorte. Disse isso, disse que eu tinha todas as atitudes. Disse, na minha cara, me olhando como quem avalia um bicho antes da compra. É muito forte uma criança de nove anos ouvir isso do próprio pai. É um choque para qualquer pessoa. Sabe por que o meu pai não soube qual era a minha brincadeira preferida? Porque ele fora um péssimo pai. Não tem vigilância de mãe e nem proibição de pai que façam o menino fugir do que está dentro dele. Deve vigiar sim, mas para defendê-lo da violência, que eles nunca enxergam, o mais é perca de tempo. O homem quando nasce para gostar de homem, ele gosta. Pode comer duas mulheres por dia que nem isso o impede, porque chega uma hora que ele quer arriar as calças e dar a bunda, ou então, comer um macho.

Ninguém Me Fez Tanta Falta Quanto Esse Adolescente

Eu fui embora para Fortaleza, ele também. Pode parecer bobagem, mas a selva de pedra contribuiu para que eu o perdesse. Não sabia como encontrá-lo, e distante voltou toda a minha fragilidade. As coisas estavam se complicando e acabei voltando. Vila das Flores era o meu destino. A cidade estava apagada, horrível! Em pouco tempo a cidade se transformara em um rio de lembranças. Cadê o Téo? O encanto que eu atribuia a cidade estava nele. Eu começava a amargar o dissabor dessa coisa rompida. Repito: - Ninguém me fez tanta falta quando esse adolescente. Tenho consciência que apostei numa causa perdida. Agora vendo a distância, eu sei que foi uma grande bobagem porque eu me perdia, sem me dar conta disso. Terminou o ano e voltei à Fortaleza.

Confesso, eu quis vir de encontro, quis saber dele. Um dia, percebi que o amava, até aqui não sabia. Engraçado, eu não sabia que o amava na plenitude da idade: a juventude em minhas mãos. Assumi dentro de mim, que era amor. Não era comum lembrar de um amigo insistentemente. Meu Deus! Então, eu era homossexual.
Eu, homossexual? Não foi só coisa de criança. E quem poderia me orientar? Só o tempo. Eu precisei mergulhar na podridão para conhecer a pureza da raça(!). não tinha mãe, tio, avó, avô, ninguém que pudesse me dizer o que era isso. Eu só via as pessoas atirando pedras, condenando quem já estava pelo sistema. E de censura, eu estava cheio. Passei parte da minha adolescência lendo livros de psicologia e conduta sexual. Se não tivesse sido isso, seria pior a minha situação. Os artigos, as matérias me levavam a fonte do homossexualismo e por mais que fosse claro, eu recusava e pensei que fosse apenas uma fase. Até porque quando veio o impulso de beijar o Téo, li que era normal uma atitude dessa nesse período de descobertas. “O germe estava apenas despontando” – diria um amigo. As pessoas não precisariam saber. Aqui estava mais um dos erros. Isso é bobagem. Todos sabiam e fizeram aquele velho jogo de hipocrisia. Eram hipócritas eles que fingiam não saber e eu que fingia acreditar nisso. E quando as pessoas chegam perguntando: - cadê a namorada? Ninguém pergunta isso inocentemente, então diga o que elas querem ouvir. Sim, eu o amava e precisava vê-lo para dizer. Escrevi para a minha mãe, pedi que conseguisse o endereço dele, mas ela não iria fazer isso e não fez. Ora, se não fosse com ele, seria com qualquer outro, naturalmente. Esse qualquer é terrível! Não sei como suportei essa distância, essa fadiga que me açoitava sempre todas as noites. Quando é um sentimento que pode ser exposto, a gente conversa com um primo, uma prima, sei lá. Mas esse? Restava as horas tolas e perdidas para eu sonhar. Bom, todo sentimento pode ser exposto sim, mas não vale a pena expor o que há de bom em nós, quando o meio social, não merece que nos revelemos. Que horror! Eu estava condenado. Era isso o que se passava pela minha cabeça. Sem o menor efeito dramático, não sei como não me suicidei.

Rastejando o Tédio de Suas Carnes Inflamadas

Sobrevivi, posso contar.”
O pai dele tinha um depósito de algoodão, e nós estávamos lá. Nossos corpos lutavam, nossos olhos se devoravam. Ninguém disse uma palavra. A tarde era quente e logo nossos corpos suaram. Alguns momentos, ele cerrava os dentes tentando me vencer. Eu poderia definir aquela jogo de corpos como uma luta viçosa. Havia a possibilidade de estarmos agarrados por outro motivo. Sentir o peito daquela pessoa de quem se gosta é fato que não se narra para não empobrecer a magia. Isto foi a felicidade, houve uma poesia a contorcer-se em nós. A nossa luta ainda se dava e ninguém vencia ninguém, só o prazer de estarmos agarrados dominava a tarde. Quando as coisas não são vividas abertamente e de uma maneira completa, mais tarde nos deixam impotentes. Em seus olhos eu li o que estava escrito no convite. Aquele olhar de brilho encandescente me chamava... me chamava... me chamava.

Os dois estavam vencidos – caidos sobre as baganas, em um quarto sem ventilação. Naquela hora de alguma forma ele foi meu. Muitos desencontros foram causados por mim. Homens que amam demais estão sempre se culpando. Depois disso nada teve graça. Tudo foi desencontro assim como a infância. Esse velocímetro esteve em uma fase de sua vida ao meu lado. Foi isso o que mais tarde eu disse para quem perguntou o que acontecera entre nós. Não fomos capazes, ou melhor, eu não fui capaz. O Themístocles foi outro colega de todos nós nessa mesma época, ele me disse que fazia sexo com as bichas velhas da cidade, e que o Titico era um deles. Todos decadentes, homossexuais afogados na própria sexualidade, rastejando o tédio de suas carnes inflamadas. Eles provavelmente nunca deram um beijo na boca nem tiveram um contato mais humano (Deus livrai-me de tal sacrifício!). sim, uma tarde, Themístocles e eu fomos ao sítio do meio, um açude distante da cidade, e no caminho nos masturbamos frente a frente. Nos olhávamos, enquanto o gozo não chegava, a distância de quatro metros aproximadamente. Esse meu amigo era um dos maiores frequentadores da casa dos deserdados: Titico, Zé Galinha e companhia.
Nesse período, o Téo namorava a Priscila que teve dúvidas em relação a sexualidade dele, e veio saber de mim, essa verdade.
- Priscila, por que perguntar isso a mim?
- Vocês estão sempre juntos, são amigos.
- O Teó está afastado. Quase não tenho conversado com ele.
- Caio, você sabe o que as pessoas comentam, não sabe?
- Priscila, sei.
- Então?
- Você gosta dele, ele é seu namorado. Não vejo porque
essa preocupação. E também eu não sei. A pessoa ideal para lhe responder é ele.
- Caio, me diga por favor.
-Eu não sei.
O Téo nunca deu abertura para que conversâssemos essas coisas. Talvez tenha dado, eu que o respeitei demais. Uma vez, ele me disse que o filho do dono da padaria foi tomar banho em sua casa e se masturbou... nada mais. Essa história todos sabiam, mas a versão contada era outra. Eu que cheguei depois acreditei nele e fui escolhido para sua vingança não planejada. Fim de ano.

Sangrava o Apetite, E Sozinho Não Me Censurei....

Eu era criança, e quando o encarei pela primeira vez, vi em sua imagem alguma coisa confusa, indiscrítivel. Era como se colocasse uma carola frente a frente como o demônio., mas isto tudo fazem vinte e quatro anos. Eu olhava, embora não gostasse do desenho. A beata não tem força para fugir do pecado. Ele era branco, magro, estatura mediana, tinha os cabelos crespos pintados de louro, usava sempre camiseta. Lembro de seus tamancos combinando com sua sombra azul, e no pescoço uma bela bijouteria, as inesquecíveis gargatilhas.

, fui com minha mãe na casa dos pais dele, e o avistei no alto, entre os canteiros. É certo que havia a curiosidade – diziam que era uma criatura abandonada por Deus. Parecia diante de mim, um quadro onde o pintor inexperiente não mistura bem as tintas e a tonalidade das cores sai distorcida. A mamãe foi muito desagradável ao perguntar a mãe do rapaz se ela não tinha desgosto. A resposta foi imediata e tão cínica quanto a pergunta.

Não sei o que as pessoas vêem de esquisito no Francisco... eu não vejo nada. Ele tem uma namorada em Fortaleza, e vão se casar. Não entendo porque as pessoas gostam tanto de falar da vida dele – finalizou. Essa conversa das duas foi exatamente em 1980. A história se repete: alguém sempre é indiscreto e um outro se faz surdo e cego.

Lá em casa tinha muitos discos, e eu passava horas olhando o rosto dos cantores. Sentia desejo pela fotograsfia. O rosto. O olhar. A pele. Eu beijava essas fotografias e acreditava que o beijo era verdade. Sangrava o apetite e sozinho não me censurei. Isso foi bom, fazia bem, então, era só ninguém saber. Manter segredo e assim realizar a minha fantasia de menino baitola com freio – meu trauma Freudiano. Também na casa da minha avó existia outra coisa que me atissava, uma caixinha com algumas bijouterias, e havia um par de brincos com pressão. Era a glória quando a vovó ia para o rio e me deixava sozinho. Eu imitava a minha mãe conversando com as amigas. Que coisa! Que pensamento atingia meus sete anos. São situações que escondi dos outros, não de mim. Coisas que os anais da minha infância consagraram. Hoje essa vontade passou, mas quando criança eu quis ser mulher. Sempre que brincava sozinho, imitava uma mulher: Gal Costa, Elba Ramalho, Gretechen. Ainda alcancei a era colorida do disco, e isso ficou em mim – a fantasia das plumas e paêtes. Oito anos de idade e o sexo aflorava dentro de mim, assim como um mississipe em chamas. Tive desejos obscenos. Quando olhava um homem. Imaginava logo o pênis dele em minha direção, e fugia deixando tudo no mundo da imaginação. Eu temi ser parecido com o Titico, foi um trauma absoluto. Havia um pavor. É tanto que genuinamente fiquei feliz, quando vi em meu corpo alguma perspectiva de ter pêlos. Pensava eu que ter o peito cabeludo era coisa de macho. A minha irmã tinha umas bonecas, e eu as batizei. Conversava isso abertamente com a minha mãe. Ela deve não lembrar ou não ter dado importância a esses diálogos tão valorosos, eram eles que formavam a minha conduta perante as pessoas. Quando criança fui um mini-gay assim como todos os outros que se assumem mais tarde. Dentro do sistema que vivi, eu fui transgressor da realidade. E agora me dá ânimo falar isso.

Eu Não Poderia Ser Gay

Sopra o vento norte

Onde a canção me leva...


Frase melhor é impossível! Eu estava voltando para Vila das Flores, um ano depois, para ficar. Por quanto tempo? Quando saimos de uma cidade poluida e partimos para o contato com a natureza, existe uma mudança brusca em nossa respiração, parece que as narinas e o pulmão se enlarguecem. Assim era essa volta.

Como seria nosso reencontro? Muitas perguntas acabam nos deixando agitados. O encontro era indispensável, ia acontecer. O frio me consumia todo. Algo muito estranho soqueava a boca do meu estômago, mas esse regresso à cidade natal foi marcante em minha história. Era ele, o tremor de minhas carnes. Seria o Téo, o elemento incitador do meu desejo? O filho da professora coloriu a minha adolescência.

O sol e a lua na roda da fortuna

Estávamos nos aproximando lentamente... ele era a minha atração e essa atração tinha o mérito da longevidade. A cidade deu em cima. Não compreendíamos o que falavam, para todos éramos gays, amantes, namorados. Cheguei mesmo a pensar em pular essa fase, mas é inapagável. Agora estávamos conscientes sobre o que pensavam a nosso respeito. A minha mãe não queria que fossêmos tão próximos, disse que as pessoas eram maldosas e poderiam pensar mal de nós, mas ela ignorava a fera sedenta que vivia dentro de mim. Numa manhã, entrei em seu quarto, ele dormia, excitado, em uma rede. Emergiu o desejo de partir para o contato fisíco, mas aquilo veio como uma bomba.

Meu Deus! Não. Eu não poderia ser gay. Será que a cidade tinha razão? Será que apenas eu não sabia? E por que que eu tinha tanto tesão em homem? Ele acordou e pediu que eu saisse do quarto enquanto trocava de roupa. Por que isso? O Téo sempre foi muito reservado. Vila das Flores era conhecida na região como a cidade gay – tanto homens quanto mulheres. É possível que nem fosse, o que acontecia era que as pessoas manifestavam suas vontades. Nos anos setenta já existia travesti. Um homem assumir praticamente em um povoado a própria homossexualidade é muito peito. As pessoas não tinham estrutura para conviver com essa realidade, mas o Titico dizia que na capital era conhecido como Terezinha, nas discotecas; mas que em Vila das Flores, as pessoas poderiam chamá-lo de Francineuda. Ele achava que arrebentava a boca do balão e estremecia a discoteca. Levando em conta a sua realidade, o Titico foi muito importante para a evolução gay de Vila das Flores, e deveria estar para nós (a região), assim como Leila Diniz está para a evolução do Movimento Feminista do Brasil. Depois dele, outros vieram mas ele foi pioneiro em assumir-se travesti. Seus antecessores não manifestaram a própria sexualidade, para os próprios isto foi assunto proibido. Agora nesta década surge o Titico para povoar em tantas mentes o que depois Sônia Braga relançou em Dancy days. Ele deveria ser reconhecido como patrimônio das diferenças sexuais do lugar onde nasceu. Digo isso como provocação porque sei que as pessoas o desprezam, o ignoram, o enxergam como sub-raça. Mas é certo que sua contribuição foi mais cidadã que a de qualquer político e qualquer religioso que cheiraram o mofo da hipocrisia ao decretar seus interesses sócio-cultural da cidade.

Um desabafo Que Se Traduz

Amores marginais

A intenção desse livro é que você se perca e se encontre, se deteste e se conheça, no sentido da figura de linguagem, sem precisar se expor aleatoriamente. Porque a vida não é aquilo, é isto; ou a vida não é isto, é aquilo. É a síndrome do que está próximo. Pode ser que seja a alguns olhos, cruel. Mas é o contexto real. Não caia na esparrela do glamour, é falsa a maioria das intenções. SE POLICIE AQUI. Falo por experiência consumada. Alerto, contra os becos da desgraça do impróvavel já provado. Venere uma verdade, podemos intrasitar o verbo – Ser.

Está lá no Grupo de Irmandade A.A – escrito: “Não entre em controvérsia, evite o primeiro gole. E anotei em uma agenda velha, tão velha quanto o desejo: “O Grupo de Irmandade H.A alerta: - não entre em controvérsia, evite o primeiro banheiro, a primeira praça, a primeira avenida, a primeira traição e a primeira esquina. Evite o cinema, a promiscuidade, e não queira evitar a primeira paixão. Não cale na boca o primeiro amor. É tão digno dizer te amo a um homem quanto a uma mulher. Não é e nem pode ser vergonhoso. Não faça de sua sexualidade uma tortura, nem tão pouco deixe que a torre da destruição seja lançada sobre sua consciência. Não adianta o desespero, somos assim, estamos marcados. Agora é limpar a mente das pessoas para que elas possam enxergar o que somos: pessoas comuns, iguais com defeitos e qualidades.”

Fugir da força de um desejo pode ser a construção do trampolim para a morte. Esse livro é de certa forma para principiantes(?), pais e qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade para a questão que ainda assusta os lares e as famílias. Assusta principalmente a consciência de muitos que não sabem separar o homossexualismo de uma bomba atômica. Será que o próprio homossexual sabe? Dizer que o homossexualismo é doença; é cretino e anti-racional. Nem era mais para existir essa classificação. Somos gente que expressamos a harmonia de nossa natureza. Se o mundo está em desarmonia ou se assim foi fabricado, não devemos nós entrar em conflito para ficarmos em igualdade. Vinte anos depois, não vou tentar encontrar uma resposta, mas pensarei como foi, como é e como poderia ter sido. Há uma preocupação em relação a conduta sexual, já que eu faço parte dessa mesma história. E não dá para voltar... isso não existe. Embora muitos se enganem, eu preciso da verdade ainda que doa mais. Parece que a minha conscientização se aproxima e é preciso olhar a realidade desencontrada. E mesmo sem buscar essa resposta, ela virá. O importante é não haver enganação para ninguém. Estamos todos no mesmo barco – manuseados à discriminação. É claro que existe o opressor, porque alguém está disposto a fazer o outro papel que é o oprimido. É claro que um ou outro pode contestar a minha tese. Há quem prefira advogar em causa própria. Quando falo de um travesti, não falo de um indivíduo só, mas de todos que estão à corda bamba.

O meu irmão era querido por todos, ativo, imediato. Eu tive o sentimento de rejeição. E como fuga comecei a me isolar das pessaos e das coisas. Claro que isso começava a se intensifcar: eles me deram o papel e eu comecei a cumprir uma função que me fazia mal. Eu era um patinho feio que parecia engraçadinho para os estranhos, mas um dia o patinho cresceu e virou um belo cisne. Sempre fui apegado a minha avó materna e gostava de ir para o sertão onde ela morava. Os finais das tardes eram nostálgicos mas exerciam um fascínio sobre mim. Eu adorava ver as cabras chegando para dormir, e eu correr atrás dos cabritos, brincar com eles. A noite, olhava a escuridão sem fim e tentava alcançar o mais distante barulho dos grilos, dos sapos, e do vento. - A noite tem mistérios – e pensava que quando crescesse, enfrentar o mundo seria como atravessar aquela escuridão.

O Instinto Não Se Engana

E terminou assim! Arrancaram de minhas mãos alguma coisa que seria vital à minha infância. Era extremamente necessária a infantilidade para brincarmos e só. O tempo se encarregaria do resto, passionalmente. A separação dos meus pais veio atrapalhar o romance dos anjos. Paz.
Apertamos nossas mãos – eu jurei não mais brigar com ele. Sim, eu necessitava de sua amizade. Quantas vezes, eu me percebi a observá-lo com fascínio. Instinto. Um dia, estive sozinho com ele e... quase. Havia um segredo. Não, eu tinha varios segredos, e um deles parecia estar à vista. Com o passar dos anos, aprendi que o bom sedutor nunca revela sua arte. Eu não fui tão bom assim, se fosse não teria deixado vazar a verdade, mas o meu primeiro encontro com o Téo ficou marcado por uma razão bem simples: O instinto não se engana.
Parece que foi ontem!
Eu não tinha a menor consciência do que um homossexual significava para a luxúria da sociedade. A única coisa que eu me conscientizava era que havia um prazer em ver o menino que fazia parte - indiretamente – da minha infância e depois da minha adolescência (assim como William Shakespeare faz parte da dramaturgia inglesa), e que nesse intervalo de tempo não éramos mais colegas. Eu estive em outra cidade, e isso me fez falta. Esse reencontro aconteceu para que eu reouvesse essa interrupta passagem. As férias acabaram e eu já não era o mesmo. Havia me apegado à cidade e as pessoas. Enfim, voltei para encarar as minhas tentações. Caiu a tarde, o Téo vinha do colégio e fui ao seu encontro. Ele se distanciou dos colegas que vinham em sua companhia, e me sorriu. Eu precisava ir embora. E pela primeira vez, ainda que negue, ele ficou com os olhos lacrimosos. Eu quis ficar junto dele – é preciso reforçar essa idéia. Pedi a minha mãe para deixar que eu ficasse na cidade, mas não foi possível. Eu estava encantado. Nessa tarde, o Téo e eu... Sabe o que é o silêncio falador? Haviam pêsames em nossas almas. Ele não disse nenhuma palavra nem eu, também não precisava. Precisava, porque é sempre bom ouvir.
Téo, eu te amo. Eu deveria ter dito. Ele sabe que em silêncio eu disse muito mais que isso. Em nossa despedida não nos tocamos nem apertamos nossas mãos. “As flores do jardim da nossa casa morreram todas de saudades de você.” Esse dia foi poético. Tive o desejo de abraça-lo e me contive. Um abraço é um gesto tão natural. Sim, muito natural para quem não tem nada a esconder.

Assim Tudo Começou - Inocência e Desejo

Caio aparece de perfil, em uma contra luz... está despido... depois mergulha no mar.

Fui sentenciado a pagar o alto preço de amores marginais. Não me odeiem, por contar nossas verdades. É assim que você me quer, é assim que você me pinta. Antes eu queria apenas uma poesia, um poema, uma declaração de amor, mas veio o inevitável – desejo de confessar. E confessei o que eu mesmo não quis acreditar. Tudo veio como idéias, idéias invadidas pelo raciocínio. Chega um instante em que nós falamos ou morremos aos poucos. Por isso sinto uma parte de mim, morta, incapaz! E mergulho nisso para reencontrar o mínimo que ficou perdido. Sempre fica alguma coisa. Há dias terríveis de silêncio eterno em que não sabemos o que fazer e toda essa tortura é inútil. E chegou o tempo d´eu sair da toca.
Assim tudo começou – inocência e desejo

Eu não sei para quê nasci, mas aqui estou. É muito brusco começar assim, mas tudo foi muito rápido. Precoce. Quando nascemos, os nossos pais fazem planos para nossas vidas. São nossos “donos” e esquecem que logo teremos vidas próprias. Quase sempre uma maioria tenta se realizar através dos filhos, construindo seus sonhos acima da formação individual de cada um.

Eu já nasci assim. Quanto mais puxo pela memória, mais vejo o desejo antigo. Na casa da minha avó materna, a minha tia passava baton na minha boca; eu gostava e morria de medo que o meu pai soubesse. Mas ele sabia. Todo mundo sabia, menos eu. Uma vez, um rapaz que trabalhava com ele viu. Era final de tarde, no sertão. Tive medo de voltar para casa. Eu tinha quatro anos, devo ter apanhado por isso. São imagens remotas, distantes, e por isso incapazes de estarem nítidas. São acontecimentos que ninguém nunca ousou refrescar a minha memória, mas que eu guardei como sobras do que se foi. Quando criança calei, abafei o que gritava em mim, por medo do mundo, do pai, da mãe. E como é difícil chorar em silêncio! Que coisa terrível o ódio de um filho pelo pai. Só sei que o desejo é incógnito, nunca sabemos onde e nem quando aflora. Sim, eu preciso ir até o fim. Doa a quem doer.

...e assim se passaram longos anos

Àquela noite, meus pés á beira da praia, o vento também frio no meu rosto, eu louco de desejo. No coração, uma sensação estranha: saber que um dia, tudo poderia acontecer e essa preciosidade, que tanto deixei escapar, voltaria para mim. Não seria isso, depois de tantos anos, uma canção perdida? Que importância tem isso para quem acredita na ilusão? Só um nome adoçava a minha alma – Téo. Esse nome era como sopro de mágica. Pra quê voltar ao passado? Talvez agora ele diga. Eu responderia que a nossa história é o passado. O presente é só meu porque estamos distantes. Eu confesso esse sentimento. E foi duro chegar a essa conclusão de amor e susto. Não foi só coisa de criança. Tudo veio despontar mais tarde. Aqui, quando eu menos esperava. Em l987, fui passar as férias de julho em Vila das Flores. Voltei para amar o Téo, assim como não amei a mim mesmo, ou para reencontrar meus sentimentos encalhados à infância. Por uma razão ou outra, esse adolescente foi o ápice do meu delírio gay! Éramos adolescentes, mas algo muito forte havia marcado o nosso primeiro encontro. Ainda não tinha completado sete anos de idade, e fui matriculado na escola estadual. No primeiro dia, logo no primeiro olhar, foram perturbadoras as sensações quando entrei na sala de aula, vi o Téo pela primeira vez.

Eu estava hipnotizado e não tinha consciência disso. Ele estava sentado com o pedro, que me chamou para sentar com eles. Fui e não olhei nos olhos do Téo. Tudo nele me chamava atenção e de uma certa forma, me deixava intimidado. Havia um fascínio absoluto! Sem vergonhice? Logo cedo, também menino, a imagem de um homem me fascinava. Dizem que crianças não têm apetite carnal. Eu tive. O máximo que eu consigo atingir são meus quatro anos de idade, e lá eu já admirava o masculino. Quanto mais maduro o homem, mais interessante parecia. Era fantasioso, isso me excitava, mesmo nunca tendo visto um nú. Dizem também que até os sete anos todas as crianças são anjos, não têm pecados.Verdade?Não sei, mas eu sentia vergonha disso, e guardava só para mim, esse apetite ainda sem malícia. Quem sabe! Talvez, eu já despertava a minha sensibilidade para o que mais tarde fora evidente. Esse sentimento pelo Téo, sobreviveu parte da minha vida, foi íntimo de minha alma, assim como as noites solitárias que vieram com o passar dos anos. mas não me arrependo, se as circunstâncias fossem as mesmas, eu o amaria com um amor voraz. Só que de uma forma concreta. Na infância, fui afastado dele da maneira mais brusca possível, na hora do recreio, eu saí da sala de aula para brincar e não voltei. Uma semana depois fui levado para Santa Catarina. Não sei se foi a melhor coisa... e não foi. Tudo começou errado, talvez fosse importante ficar na escola e seguir o curso natural das coisas. Deixar que acontecesse o mais provável.

Introdução a Amores Marginais

Amores Marginais! O que vem a ser amores marginais? amores silenciados em becos escuros, em vielas, em favelas, em mesas de bares ou mesmo em mansões? amores marginais é o que corre nas veias de todo ser que arrebenta os padrões, que surrupia a moral imposta. Amores Marginais é isto que eu culpo como revelação de mim mesmo, é isto que eu declaro sentença da sexualidade.
Tanta coisa é imposta pelo sistema, pelo impostador da regra social. Mas dentro do transgressor isto se torna menor, quando a verdade vai de encontro a ela mesma. Ninguém completamente feliz mantendo vinculo com a falsidade ideológica da sociologia humana. Regras foram quebradas, as virtudes e os valores são mutavéis. Por isso ainda que a marginalidade do desejo se expresse dentro nós, segundo os moralistas de plantão, nós não devemos abrir mao dela. Somos assim, estamos assim por fatores reais que nos impulsionam e foram impulsionados pela natureza humana. Registrar aqui meus amores, meus temas marginais, é na verdade uma declaração de amor que faço a mim mesmo, na certeza de me auto conhecer, na versão oficializada por meus desejos consagrados e sagrados segundo meus principios. O maior principio vindo de mim, são a oficialização e outorgação nascidos de meus eus e de meus ais na pele.
Em um passado não muito distante, a crença em meus mitos cristãos, me fez sofrer, por pouco não me entreguei a fé e a crença falsas de valores com significados vazios, mas que até então eram valores impostos por meus ciclos sociais e humanos. Precisou vir a dor, o medo de ser o que eu era, para eu entender, que só restava um caminho... e por mais que hoje o caminho não escolhido, mas seguido, tenha sido o mais dificil, eu posso sem nenhuma falsa aparência dizer: Ou eu sobrevivia carregado de culpa imposta ou eu romperia com labirintos na busca de minha propria alternativa. Nasci homossexual, não tive escolha, ninguem tem. Nascemos. E já que isto é redundante, eu afirmo, rompi com as crenças e lendarios focos do cristianismo, mas não rompi com a humanidade que carrego dentro de mim. E digo carrego, porque isto não é fardo que me levará a algum tipo de salvação. Carrego em mim, atos humanos porque esta é a minha essência....
Não me adiantaram regras condenavéis. Elas se espatifaram assim com uma vidraça já sem serventia. E no entanto, transcrevo minha alegria, que é me esvaziar de qulquer remorso em relação a isto: ser homossexual. Amores Marginais me alivia, por ter sobrevivido e não esconder a minha versão sobre isto. Isto é uma realidade e nunca por nenhu moento deixarei que alguem por virtude ou por prepotencia arranque minha identidade.

"O Poeta Aponta a Lua, O Idiota Vê o Dedo...


Desculpe, meu amor, mais você precisava saber disto. Você me pediu para não cessar minha causa, naquela mesa de bar, você ainda parecia meu. Depois a curiosidade levou você para longe de mim. Não adianta aqui uma quebra de braço. Serei passivo diante esse fato. Assim eu sofrerei menos ou sofreria. E cada vez que você for nessa estrada fascinante, a iluminar os pedregulhos, que você falsamente acredita serem reais e cheios de brilho você está a sucumbir. Eu cesso a causa, eu cesso a luta. Eu perdi, o meu bem mais precioso: você. Mas não lhe condeno por causa alguma, e quando não compactuo com sua amizade é por que sei que não há motivo para amenizar os fatos. Espero que um dia qualquer, você caia na real, e possa perceber que a vida não é isto que hoje o leva, que o hoje encanta. O valor dado as pessoas deve ser prioritário. Aprenda isso, hoje saio da cidade, para me reencontrar, para me salvar de labirintos que criei na idealização de encontros maus logrados. Amo você. Não esquece disso. E saiba que a importância que lhe dedico é fidedigna a visita que um dia o farei... talvez um dia, tenha certeza, eu o visitarei com um ramalhete de flores. Ou quem sabe com uma palavra amiga cheia de surpresas que lá fora não surgiram. Não o dedico mais o meu amor, e sei que o amo. Mas sua incapacitada é sua e não posso fazer nada para que ela desapareça. Guarde o meu ultimo abraço, assim como eu guardo as belas tardes, as noites que tivemos de inteira cumplicidade. Um dia quem sabe, talvez você aprenda a amar... e que nesse dia a mentira não esteja presente para que não fique nos ouvidos de seus futuros amantes a verberação que fica agora em mim: você é um grande mentiroso.

Eu gostaria de dizer também que você não é culpado, e que é sabido pela história da civilização que cada um só pode dar aquilo que tem. E infelizmente você teve muito pouco para me dar sentimentalmente. Eu não estive errado por querer mais. Siga em paz! Tudo isso começou naquela mesa de bar, você tentou me convencer a escrever. E eu escrevi. Agora sinto a nostalgia dessa tarde em que escrevo. Mas percebo que aqui realmente mais um capitulo chega ao fim. E se haverá um vale a pena ver de novo não sei. Acredito que não. Mas uma história entre nós dois existiu... e só o tempo dirá se as cenas memoráveis serão definhadas por nossas memórias, talvez ingratas.

Um beijo. E espere que um dia eu lhe dedico um ramalhete de flores. Levarei flores ao seu tumulo. Isto lhe parece e é dramático, mas dentro dessa dramaticidade há todo um bem que só assim se explica. Não há nada mais poético do que levar flores ao tumulo do ex amante. Não veja isto como insulto, juro que não é. Nisto há ainda toda a ética, o cuidado que semeei.

Juro que eu beijava o seu corpo, o seu cadáver para provar que eu fui digno de você. Mas enfim, a nobreza de um homem é inexistente quando falta o motivo do outro. Será que escrevi a você o ultimo sopro com brilhantismo? Aqui eu faço e interpreto o meu ultimo monólogo. Será que entre nós existe ódio? Ou mágoa? “O ódio é muito próximo do amor”. Temos um dever impar que é nunca fazermos mal um ao outro. É com tristeza e peso que fecho isto. É um pedaço de mim, que desaparecerá agora na despedida. Sinta o meu beijo no seu olho esquerdo... sinta, sinta com o mesmo sabor que sentira outras vezes. Ofensas foram inevitáveis. Eu envolvido no apego, senti a sua indelicadeza. Indelicadeza sua me pedir para corrigir uma carta que você direcionava ao seu novo rapaz, indelicadeza sua falar ao telefone com seus ficantes e mesmo tentando disfarçar eu percebia. Mas é sabido ainda que isto é uma questão educacional. Fomos no limite. E nesse limite a mágoa foi particularidade. Todas as coisas que nos foram proporcionadas de uma forma negativa, é possível que um dia nem você nem eu gostaria de passar. Saiba que todo o universo é regido pela mesma lei. Pelos mesmos códigos filosóficos do sentimento. E sentimento sentido deveria ser sentimento respeitado. Em nome disso em lhe disse: fora! Você não tem mais nada que eu possa admirar. Quando eu queimei o seu namoradinho foi proposital, o rapaz nem tinha culpa, mas eu quis naquele momento também, lhe ferir. E não tenha duvida naquele momento você já estava fora da minha vida. Na minha vida simples não há espaço para canalhas, e gentinha mal educada.

Se é verdade que o ser humano deve ser igual ao cedro que perfume o machado que o derruba. É bom que você aprenda isto. Eu sou todo um jardim, e você apenas uma papoula murcha que se perdeu no córrego poluído. Entre nós não há nenhuma possibilidade de uma amizade, de um afeto. Ainda estou preso entre a mágoa e o nojo, mas preciso ainda lembrar que falei em perdão. E preciso consertar isso dentro de mim. Para que não seja guardado nenhum arquivo preto. Fique junto dos porcos, e coma do mesmo farelo. Fique junto dos assassinos de alma, junto dos chantangistas da honra alheia porque a sua moral é isto. Igual. Vocês são todos da mesma argamassa, feitos da mesmo argila. Escrevo isto para lhe punir, para aviltar todo a bem querer que ainda lhe dedico. Eu não posso querer bem a você, eu não posso esquecer que faltou respeito. Que você segundo a sua própria mãe é um ser egoísta, mentiroso e mesquinho. Ninguém é obrigado a amar ninguém, mas é essencialmente necessário o respeito.

Eu só espero que um dia você se encontre e seja mais homem, mais gente, mais voltado para a dignidade e valorização pessoal. Ei, o cara legal que você conheceu foi embora, você percebeu?

final do artigo francamente......

Vale a Pena Ver de Novo

O título lembra novela da Rede Globo de televisão. Lembra aquela história de amor que se repete. Em nossas vidas quantas vezes paramos para pensar nisso, e ter a certeza que vale a pena ver de novo? Ver a pessoa amada, ver aquela criatura que mexeu com nosso instinto dando nos a certeza que é possível reinventar alguma coisa. É, estou falando de amor. É inenarrável a sensação de voltar aos braços da pessoa amada depois de um dia exaustivo. Ah, como isso é bom! Será que os amantes sentem isso ou apenas tentam cumprir o seu papel burguês? Pela manhã, um e o outro sai para o trabalho, pouco se falam, pouco se encontram. Essa frase não sai da minha cabeça: “vale a pena ver de novo”. Quem? Por que? Para que? Quando? Hoje, sempre, todos os dias. Todas as perguntas que se relacionam com as emoções devem ter respostas frívolas, energizadas, palavras polarizadas porque é só isso mesmo o que vale a pena: o amor. O respeito. Vale a pena, sim, ver de novo, abraçar de novo, beijar de novo.

Nossas vidas têm o charme das novelas, os percursos vividos pelos personagens, e um tempo e outro, elas se mostram na tela para o anunciado vale a penas ver de novo. Nossas vidas não são diferentes. Na tela a realidade colorida de imaginação.... mas a essência é a mesma. Quantas pessoas maravilhosas contracenaram com a gente neste palco acelerado na incerteza que é a vida? E onde elas estão agora? Será que não vale a pena revê-las? Procurar por elas? Vale a pena sim, nós mesmos não gostamos do “ver” porque somos ingratos, sem memória, muitas vezes nos falta a consciência... e ficamos nadando abobalhados em uma nova onda, em fatos que não são e nem terão porque serem históricos.

O passado não pode ser renegado. Sabemos disso melhor que qualquer outra pessoa. Pequenas falhas podem ser relevadas, grandes erros podem ser perdoados. Por que não? cada vez que a rede globo de televisão anunciar um romance que vale a pena ver de novo, eu quero poder pensar na história protagonizada por mim. Quero voltar no tempo cheirando a presente e rever os amigos, renovar meu afeto por algum amante e não esquecer a ética, o cuidado, e principalmente a gratidão. Só não vale a pena é ver a vida ser diluída no fracasso, na solidão, na punheta a um ou coletiva.

Vale a pena, sim, ver de novo, aquela pessoa linda, que nós escolhemos para amar, acordar ao nosso lado, é pensando no passado, em algum rosto que eu não esqueci, que faço essa reflexão: ah, como é bom poder pensar isso: VALE A PENA VER DE NOVO.

A Conscientização

Eu ainda o amava, isto é quase inegável... E é quase porque eu sei que já tenho forças para negar ou disfarçar. E muitas vezes, eu havia resistido as propostas dele, as tentativas. É pena que eu aqui já conhecia esse homem e me percebia ainda fortemente ligado. Mas como ele minimizou-se diante de mim, ele para ter meu respeito precisaria se agigantar. Acho difícil. Ou não acredito mais nisso. Eu na casa dele, o chamei para a minha cama, ele disse que estava com sono. Fui para a rede, e fiquei abraçado com ele. Ora era silêncio, ora pequenos diálogos. Por que nos desencontramos, eu me perguntava ou perguntava qualquer coisa que pudesse vir como clara resposta. Mas quem pode responder? Estávamos ali, ele parecendo mais meu, no ângulo do cuidado, eu abraçado com ele, assim como um pai acolhe um filho em seus braços. Quem de nós na ousadia do inevitável mandaria o outro ir embora? Ele me tirou da vida dele, ou melhor, rompeu qualquer compromisso. Porque a lei da oferta, o mercado visivelmente oferece coisa melhor dentro de uma concepção miseravelmente míope. Mas há latente alguma coisa entre nós mais que sexo, mais que carne. Nessa noite, eu queria que fosse realmente nossa despedida. Por isso não poderia haver nenhum desencontro para ela. Tudo tinha que acontecer na fluidez do incorpóreo. Espírito e apego, apego e verdades passadas por nós. Mas eu sei porque nos perdemos. O lugar lá fora tem poder, a sauna, o cinema, a boate. Eu o chamei de burro. Ele disse que eu era problemático. Será problematizar, prezar pela ética, pelo politicamente amoroso? Aqui eu poderia lembrar perfeitamente a mesma resposta que todos ouviram lá fora na hora de seus finais. Depois de nosso término essa era a terceira vez que íamos para a cama. Dentro de mim, há coisas que, por mais que ele me abra e me provoque, ele não as terá como respostas. O nosso convívio é silêncio. E dele, infelizmente eu espero qualquer coisa ruim, qualquer proposta desagradável. Apesar de eu saber que ele não é mal, que ele tem um coração gigante. Mas é um ser assim como o pai dele incapacitado. Meu ex namorado gosta de sexo grupal, a sauna ronda o seu universo. Infelizmente. A única coisa que para mim, foi surpresa, foi quando ele me escreveu uma carta bonita por sinal, poética e sentida. Mas sobre o comportamento dele, eu sei, nada pode ser surpresa. O mito já fora demolido. E eu digo isso com muita angústia, com muita tristeza, porque sei que é mais um que se perdeu... e fora vencido pelas regras do savoir vivre.

Depois estivemos na cama novamente, ficamos abraçados, sentindo a respiração um do outro, tivemos um final de tarde agradabilíssimo, sentimos o cheiro um do outro. E ali eu disse não. Não posso mais me deitar com você. Eu precisei ir para a cama com ele após nosso término, por dois motivos: um é que o meu corpo ainda o desejava, o outro é que eu queria testá-lo. Eu precisava saber se o nosso final se deu por uma questão sexual. Não foi isso, ele que não se contentava com um só corpo, infelizmente. E como eu lamentei isso. Mas eu não podia beijá-lo na incerteza de chupar um outro pau...

Toda a tragédia humana, as grandes catástrofes acontecem por causa do homem. É, ele , o homem que propaga a miséria, que promove a destruição do que é belo. Isto é fato, desde o inicio da civilização(?) divulgado. Mas ninguém, nenhum homem quer enfrentar-se diante da conscientização. É, ele, o homem que inflama o próprio homem para a eterna concorrência, instiga o outro a se corromper, a perseguir-se incessantemente por nenhuma causa, e por tanto nenhuma utilidade.

Aonde iremos parar? Porque chegar já parece impossível. Parar no sentido da coisa interrupta. O amor, já foi esfaqueado, estraçalhados todos os corações, arrasados os sentimentos. O sexo tão mágico, quente, intimista já não é mais. Hoje o sexo é coletivo, frio e mecânico. E já foi desvalorizado nos boxes dos shopping, nos boxes de banheiro das casas de forró. Não foi culpa minha. Eu estava no meu canto, ainda puro, quando o amor esvoaçava-se diante de caçadas, caçadores e espreitas.

Lamentável é desejar um beijo na boca e saber que já não se pode beijar voluntariamente sem o medo do gosto do esperma desconhecido. Lamentável o abraço de nosso amante cheirando ao suor de um estranho perseguido no cinema mais micha da cidade, impregnado de naftalina e desinfetante barato. Ele esquece o mito da qualidade que possui em casa. Lamentável a ausência daqueles primeiros beijos longe desse “esgoto a céu aberto” onde chegamos. Responde quem encontrar a frase mais dramática, eu já perdi a palavra mais calculada e com o mesmo peso, a emoção sentida, já perdi na perdição dos amantes fúteis o sonho infantil. O sonho madrugador e primeiro. Por que esta privada encharcada de gente bonita , bela e feia, e no entanto gente?

Saber que não perdi só, não é consolo, muito pelo contrário é monstruoso. É horrorosamente feia a batalha perdida. Onde está a solução para tantas buscas desenfreadas? Quem nevoou o amor gelando tantas camas, com algum corpo coberto por um lençol também frio? Eu sei que você sabe o que é isso. Eu sei que você já sentiu o frio dos lençóis. E sabe o quanto é impotente diante a situação. Algumas vezes ouvimos dizer, alguém sempre diz: - “Não, eu estou só, porque não quero compromisso. É opção”. Mentira. Uma grande mentira. ninguém, nenhum de nós quer estar só. Por que escolher o caminho mais difícil? Ninguém se anula gratuitamente. As pessoas gostam dessa coisa maquilada, e com um tom que soa falsamente. Nós estamos só porque aquela pessoa que nós poderíamos esperar para o jantar, que poderíamos após o jantar conversar abobrinha, beijar o rosto antes de adormecer, não veio, infelizmente. E de repente, veio e nós não nos demos conta disso. E ela foi embora para sempre!


O Desejo Desafia



O desejo pode e desafia qualquer intolerância. Uma vez, ele falou para Águida que gostava de mulheres e homens, e que se colocassem na balança, gostava mais de homens. Isto fora dito não em nome da verdade, não em nome do respeito, mas em nome da arrogância. É arrogante dizer certo tipo de coisa para quem nos ama. O sentimento é nobre quando fala de bondade.
Seu Renato, hoje está com sua vida financeira comprometida, destruiu a carreira, a família, os amigos. Renatinho, quando esteve no interior, viu as anotações do pai em agendas, calendários, onde ele anotava o dia, a hora em que havia sido comido ou teria comido alguém. Ele não anotou um poema de amor, uma frase que tragasse a saudade. Seu Renato pensava em sexo, em quantidade, e esqueceu não propositalmente, mas circunstancialmente o valor da coisa. Foi esquecida a leitura de si mesmo. E embora hoje, isto seja feito. Ele não terá mais tempo, o saldo agora será insuficiente. Foi pedido ao Renatinho que o abraçasse, Renatinho o compreendeu mas não o abraçou. Haviam ao longos dos anos um acúmulo de silêncio e posteriores desafetos. Renatinho não teve amor de pai. Renatinho é gay e luta para não ser, aliás lutava, agora ele circula em pointes. Inútil o verbo se consumindo como febre e fogo. Renatinho precisa aceitar e não correr os mesmos riscos do pai. E o pior é que corre. A vulgaridade o ronda assim como o lobo ao luar... há dentro dele sangria, que desata. Renatinho abraça o legado do pai e o recebe com alegria indizível. Ele se acha experto. Mas uma hora ele vai saber onde dói a dor dos lençóis.

Mas é garantindo pela constituição a todo cidadão, o direito de ir e vir. Tudo isto aqui falado, é falado por quem soube e sobreviveu. Por quem testemunhou a conduta gay desvairada num esgoto a céu aberto... e hoje acredita que morre o último dos românticos. Último para esse instante porque ainda é maravilhoso saber que nesse mesmo instante um novo romântico nasce. Embora morra daqui a pouco vencido. Mas ele é como a rosa tem o seu tempo de perfumar o mundo. Mas o tirano matará a poesia, o essencialmente necessário cada vez que a porta do submundo se abrir. Porque o idiota prefere ser aplaudido na chegada e vaiado na partida, saboreando suas lágrimas amargas. Gays possuem as lágrimas amargas de Petra Von Can.

Basta olhar um enfermo, que o grito de alerta se dá, se abre em eco.
Bobagem isso, vai, vai é um direito teu.
Você tem toda liberdade de mascarar o rosto e desnudar o corpo. A alma não é essencial para o vaidoso mortificado no fim. Mas mascarar esse desnudo é um processo vagaroso, é passo a passo, lento até a velocidade se alterar. Ninguém pode citar regras, isto não. Não somos modelo para ninguém, e sim, hipócritas de alguém. Somos sexualmente pajés e não aceitamos um papel coadjuvante na tribo. Queremos ser o maior, o mais desejado, o chefe, o líder sexual... e nisto foge toda a regra e todo o padrão...

Muitos que tomarem conhecimento disso, a isto não darão importância, porque eles sabem que não irão se salvar na cultura sexo-social... lamento por todos que vivem a sexualidade um esgoto a céu aberto. Quem de nós conseguirá se salvar da vulgaridade promíscua ou da promíscua vulgaridade?
É pena que a surdez seja estúpida ou a cegueira uma canalhice humana praticada contra nós mesmos. Mas enfim! É sabido que em uma calçada larga e farta há um animalzinho abandonado, entregue ao medo e a fome, ao frio. E o que os homens de bem preferem fazer? Dá-lo de presente a carrocinha para que em algum posto também frio, ele seja forçado a desistir da vida. Isto parece e é desencargo de consciência, quando o bom senso não diz acolher... Mas cada um é também livre para seguir seu próprio manifesto... É irônico ver instituições de orientação sexual pregarem - Queremos respeito! Instituições de orientação que não orientam nada. São pessoas que gritam no peito a promiscuidade e são imperceptíveis na junção do aviltamento com a falsa liberdade. Eles propagam a devassidão mascarada. Sejamos inteligentes para alcançar isto: “Fecho isto, todas as cortinas, antes que a AIDS faça morada em mim, e se alastre em meu corpo assim como um estuprador se apossa de uma xoxota”. - Tamires Língua de Veludo, Travesti.


Tudo mais é o aviltamento já mencionado contra a inteligência pessoal, contra a ética do amor.


“Hoje eu volto vencido para pedir para ficar aqui. Meu lugar é aqui, faz de conta que eu não sai.”

Cantada por Fáfá de Belém