Desejo
O que é mesmo o desejo? Chega de buscar respostas em dicionários, como também da impetrabilidade dos conceitos científico-filosoficos. Isto é falado porque dentro de nós há o mais importante psicólogo, o mais eventual dos filósofos e o mais preciso dos cientistas. E inegavelmente o mais forte dos mitos religiosos – a consciência. Como é que detectamos os desejos? Nós temos força suficiente para mergulharmos nele? O caminho é sadio? O desejo é para ser explorado. Como isto é feito é outra coisa. Tenho observado jovens com seus desejos vencidos em nome da incompetência. O desejo na hora da realização não pode separar-se da satisfação. Desejo não é culpa, é necessário este entendimento. Quem melhor conhece o seu corpo, se não você mesmo? Quem é que vai ditar regras para a sua maneira de ver e encarar o auto espelho? Será que em nome da razão houvera a destituição da vontade? Desejo é razão, e razão é vontade, e a vontade é a verdade de cada um. Então levando isto para a problemática da sexualidade do igual: quando dois homens se olham e se desejam, neles parece que já vem interligado a falta de ternura. Eles já partem para o sexo. Isto é um pouco ou um muito selvagem. Entende-se o sexo como selvagem. O.k. Só que aos humanos fora dada a faculdade do raciocínio. Tem se compreendido que o sexo na imediação dos segundos não traz culpa. Ironicamente a culpa parece estar na relação que se cria com o outro. Enfim, mil justificativas foram criadas para permanecer apenas no sexo: -“Não quero compromisso. Não apareceu ninguém capaz de me ganhar. Os que apareceram não foram perfeitos. Terminei meu relacionamento, agora quero me divertir, o meu parceiro era muito ciumento.”
O dia dos namorados... Esse dia tem uma comemoração toda especial. É um instante quase que de posse. Há também uma lembrança, vaga, e não aceita que é preferível o ficar dos ficantes, e estes anulam uma parte da história que passa e não tem capítulos memoráveis. Os capítulos memoráveis estarão escritos nos grandes, nos bons romances. Se você fizer parte daqueles que sabem construir, me manda um recado dizendo assim. “Sim, defendo o amor. Digo sim ao relacionamento”. E neste dia cuide mais, goste mais, ame mais”. Já não queremos mais cuidar, não temos mais disponibilidade para gostar. As justificativas para se evitar a culpa são tremendas, elas se emendam na numerosidade da mentira. A verdade que se tem constatado é que os homens são ariscos por natureza. As mulheres quando se olham, elas são ternas e se transfiguram na ternura. O homem está sempre na estaca zero sentimentalmente. E tratanto-se de dois homens, eles estão sempre a esperar o príncipe que insiste em não chegar. Houve um boicote e isso não se deu naturalmente. Enquanto isso em nome do desejo, ele é levado a visitar todos os redutos, saunas, boates, cinemas e dark room. Onde quer que haja um roteiro GLS, ali uma procissão segue cegamente com uma miopia duplamente qualificada. E todos os dias é batido o mesmo cartão em pontos estratégicos, embora diferentes. Isto não é inteligente: Ninguém quer ninguém. Para quê? “ Alguém traz dor de cabeça. Ter alguém se tornou um saco, é insuportável qualquer relacionamento.” Isto se tem ouvido com muita freqüência. Mas a dor de cabeça deveria ser apreciada, o saco insuportável enchido pelo outro também. Isso é mais inteligente do que ler a primeira das cartilhas de uma substância composta que é o desencontro, a intolerância que não cede ao apego.
(Risos) os rapazes de plantão em qualquer sauna não aprenderam que mais interessante do que despir dez ou vinte e tantos corpos que se exibem de toalhas, é jogar a toalha para o seu parceiro no banheiro de casa. Pobres moços! A crise é enfrentada, ou melhor, vivida. Ninguém enfrenta nada, em nome do desejo se em barca em aventuras na predominância da fenomenologia do fracasso humano da conquista. Enquanto isso parece ser necessário para todos conquistarem cinco ou mais homens em uma sauna sem se importar que essas conquistas durem apenas trinta minutos, menos de uma hora. Cada um tem seu momento de glória, e não é conseguido ou concebido enxergar um troféu arruinado: os corpos desnudos ou apenas desejo. Esse mesmo desejo tem vitimado uma grande parcela da sociedade. Será que quando Vanusa cantou mudanças e falou da incoerência, essa citação não poderia nos ser clara, assim parece: -“Com todas as incoerências que fazem de nós forte, sexo fraco”.
Ricardinho tinha sete anos de idade, e era uma fotografia visivelmente afeminada. Ele, negro, passava fome, bem raquítico, tinha um sorriso cheio de tristeza e terror. Um dia, o senhor Adalberto e sua família foram morar próximo ao casebre onde Ricardinho vivia com sua família. Ricardinho ficou feliz, encheu os olhos ao ver diante de si uma televisão colorida pela primeira vez. Ricardinho passou na calçada do senhor Adalberto, se aproximou, deu boa noite e pediu para que deixassem a janela aberta para ele assistir o ultimo capitulo da novela “a gata comeu” colorido. Ricardinho queria saber que cor era a roupa da Jô Penteado. Muitas vezes Ricardinho ia assistir a novela com fome, mas se dava a esse prazer: ver a Jô de Cristiane Torloni enganava a sua fome, Jô o alimentava, Jô o esperançava. O senhor Adalberto ao ver o garotinho de pele escura e afetado, o olhou e em seguida observou seu próprio filho, Junior.
- Tu queres o que?
- Ver o ultimo capitulo da a gata correu (ele dizia correu, ao invés de comeu). Quero ver que cor é a roupa da Jô.
- Sai da minha janela negrinho baitola. Viadinho passa fome.
Ricardinho temeroso engoliu o choro, mas não pôde proibir as lágrimas. Se sentira ofendido, principalmente ao ouvir os nomes baitola e viadinho. Porque isso dentro dele eram seus monstros. Adalberto fez questão em aumentar o volume da TV para causar inveja ao moleque que para ele era sem valor e sem prestigio humano. Ricardinho antes de dobrar a esquina ouviu o grito da Jô: - “Lembrei, lembrei, lembrei”. Nessa noite Ricardinho não quis jantar, esqueceu a fome. Ele havia passado uma semana se enchendo de coragem para pedir isto ao novo vizinho. Ao Junior, foi passada uma ordem. No dia em que ele dirigisse a palavra aquele negrinho, ele iria levar uma surra.
Ricardinho esperou quatro anos para saber que a roupa da Jô era vermelha. Em 1989, ele pode rever a gata comeu em um especial de tarde. E naquele ultimo capitulo, dentro dele, parecia chegar a bofetada verbal recebida por causa de sua condição. Mas Ricardinho, um dia conheceu uma senhora que quis levá-lo para São Paulo, ele foi. Lá ganhou a vida, ajudou seus pais e irmãos. Foi doméstico, diarista, prostituto e advogado. Ricardinho se formou em advocacia. Será que dentro dele, ele quer defender seu próprio direito? Que profissão escolhemos?
Já adulto, Ricardinho comprou vários DVDS. Ele tem a novela inteira. E passados anos, Ricardinho retorna a sua cidade natal. Quando o ônibus parou... ele causou furor. Descia do ônibus uma negra de peito, bunda, toda no vermelho e no tamanco. Ricardinho disse que voltou de vermelho em homenagem a cena que ele fora proibido de ver. De vermelho também porque assim Tiêta chegou em Santana do Agreste. Mas estava faltando mais alguma coisa: Ricardinho chegou com seus olhos azuis, em homenagem a Ana Jacinta de São José (a Dona Beija). Ele ao voltar trazia saudade de uma infância que embora amarga lhe pertencia. Ele sabia que não deu para ser melhor antes. Ricardinho sabia que não podia viver sem essa lembrança, esqueçer a infância seria esquecer dele mesmo. Agora ali diante dos fofoqueiros de plantão, estava aquela negra com o atrevimento da negra Xica da Silva. Em cada personagem da literatura que ele gostava, ele buscava inspiração. Ele foi bem recebido, esta era a primeira vez que voltava. Suas bolsas com presentes logo foram abertas. Ricardinho tinha perdido o seu sorriso. Agora sorrir era olhar e desafiar qualquer um e outro. Foi em São Paulo nos cinemas da república que ele aprendeu a desafiar, a olhar, a conquistar e calar. Na rua Aurora, Ricardinho aprendeu a não temer. Para cada irmão, ele trouxe aparelho de som, DVD de última geração. TV a cores já havia mandado. Seus sobrinhos pareciam não compreender a formatação global do tio. Aqui mais uma vez faz o jogo da hipocrisia. Ninguém diz nada, todos pensam em segredo. E novas crianças se vêem ilhadas em perguntas rápidas e respostas vagarosas.
Quantos Ricardinhos somos ao todos? E é importante salientar que vez e outra é preciso ensinar pai nosso a vigário para que o exercer do oficio não se perca na rotina. Será que começo isto sendo taxativo? Ninguém tem nenhuma verdade dentro de si para o outro. Dentro de cada um há apenas a própria verdade dele, que não necessariamente vem a ser verdade de quem escuta. Não dá mais para se aprender certas coisas com o quebrar de cara. Nem sempre este quebrar está prontificado ao conserto.
O que é mesmo o desejo? Chega de buscar respostas em dicionários, como também da impetrabilidade dos conceitos científico-filosoficos. Isto é falado porque dentro de nós há o mais importante psicólogo, o mais eventual dos filósofos e o mais preciso dos cientistas. E inegavelmente o mais forte dos mitos religiosos – a consciência. Como é que detectamos os desejos? Nós temos força suficiente para mergulharmos nele? O caminho é sadio? O desejo é para ser explorado. Como isto é feito é outra coisa. Tenho observado jovens com seus desejos vencidos em nome da incompetência. O desejo na hora da realização não pode separar-se da satisfação. Desejo não é culpa, é necessário este entendimento. Quem melhor conhece o seu corpo, se não você mesmo? Quem é que vai ditar regras para a sua maneira de ver e encarar o auto espelho? Será que em nome da razão houvera a destituição da vontade? Desejo é razão, e razão é vontade, e a vontade é a verdade de cada um. Então levando isto para a problemática da sexualidade do igual: quando dois homens se olham e se desejam, neles parece que já vem interligado a falta de ternura. Eles já partem para o sexo. Isto é um pouco ou um muito selvagem. Entende-se o sexo como selvagem. O.k. Só que aos humanos fora dada a faculdade do raciocínio. Tem se compreendido que o sexo na imediação dos segundos não traz culpa. Ironicamente a culpa parece estar na relação que se cria com o outro. Enfim, mil justificativas foram criadas para permanecer apenas no sexo: -“Não quero compromisso. Não apareceu ninguém capaz de me ganhar. Os que apareceram não foram perfeitos. Terminei meu relacionamento, agora quero me divertir, o meu parceiro era muito ciumento.”
O dia dos namorados... Esse dia tem uma comemoração toda especial. É um instante quase que de posse. Há também uma lembrança, vaga, e não aceita que é preferível o ficar dos ficantes, e estes anulam uma parte da história que passa e não tem capítulos memoráveis. Os capítulos memoráveis estarão escritos nos grandes, nos bons romances. Se você fizer parte daqueles que sabem construir, me manda um recado dizendo assim. “Sim, defendo o amor. Digo sim ao relacionamento”. E neste dia cuide mais, goste mais, ame mais”. Já não queremos mais cuidar, não temos mais disponibilidade para gostar. As justificativas para se evitar a culpa são tremendas, elas se emendam na numerosidade da mentira. A verdade que se tem constatado é que os homens são ariscos por natureza. As mulheres quando se olham, elas são ternas e se transfiguram na ternura. O homem está sempre na estaca zero sentimentalmente. E tratanto-se de dois homens, eles estão sempre a esperar o príncipe que insiste em não chegar. Houve um boicote e isso não se deu naturalmente. Enquanto isso em nome do desejo, ele é levado a visitar todos os redutos, saunas, boates, cinemas e dark room. Onde quer que haja um roteiro GLS, ali uma procissão segue cegamente com uma miopia duplamente qualificada. E todos os dias é batido o mesmo cartão em pontos estratégicos, embora diferentes. Isto não é inteligente: Ninguém quer ninguém. Para quê? “ Alguém traz dor de cabeça. Ter alguém se tornou um saco, é insuportável qualquer relacionamento.” Isto se tem ouvido com muita freqüência. Mas a dor de cabeça deveria ser apreciada, o saco insuportável enchido pelo outro também. Isso é mais inteligente do que ler a primeira das cartilhas de uma substância composta que é o desencontro, a intolerância que não cede ao apego.
(Risos) os rapazes de plantão em qualquer sauna não aprenderam que mais interessante do que despir dez ou vinte e tantos corpos que se exibem de toalhas, é jogar a toalha para o seu parceiro no banheiro de casa. Pobres moços! A crise é enfrentada, ou melhor, vivida. Ninguém enfrenta nada, em nome do desejo se em barca em aventuras na predominância da fenomenologia do fracasso humano da conquista. Enquanto isso parece ser necessário para todos conquistarem cinco ou mais homens em uma sauna sem se importar que essas conquistas durem apenas trinta minutos, menos de uma hora. Cada um tem seu momento de glória, e não é conseguido ou concebido enxergar um troféu arruinado: os corpos desnudos ou apenas desejo. Esse mesmo desejo tem vitimado uma grande parcela da sociedade. Será que quando Vanusa cantou mudanças e falou da incoerência, essa citação não poderia nos ser clara, assim parece: -“Com todas as incoerências que fazem de nós forte, sexo fraco”.
Ricardinho tinha sete anos de idade, e era uma fotografia visivelmente afeminada. Ele, negro, passava fome, bem raquítico, tinha um sorriso cheio de tristeza e terror. Um dia, o senhor Adalberto e sua família foram morar próximo ao casebre onde Ricardinho vivia com sua família. Ricardinho ficou feliz, encheu os olhos ao ver diante de si uma televisão colorida pela primeira vez. Ricardinho passou na calçada do senhor Adalberto, se aproximou, deu boa noite e pediu para que deixassem a janela aberta para ele assistir o ultimo capitulo da novela “a gata comeu” colorido. Ricardinho queria saber que cor era a roupa da Jô Penteado. Muitas vezes Ricardinho ia assistir a novela com fome, mas se dava a esse prazer: ver a Jô de Cristiane Torloni enganava a sua fome, Jô o alimentava, Jô o esperançava. O senhor Adalberto ao ver o garotinho de pele escura e afetado, o olhou e em seguida observou seu próprio filho, Junior.
- Tu queres o que?
- Ver o ultimo capitulo da a gata correu (ele dizia correu, ao invés de comeu). Quero ver que cor é a roupa da Jô.
- Sai da minha janela negrinho baitola. Viadinho passa fome.
Ricardinho temeroso engoliu o choro, mas não pôde proibir as lágrimas. Se sentira ofendido, principalmente ao ouvir os nomes baitola e viadinho. Porque isso dentro dele eram seus monstros. Adalberto fez questão em aumentar o volume da TV para causar inveja ao moleque que para ele era sem valor e sem prestigio humano. Ricardinho antes de dobrar a esquina ouviu o grito da Jô: - “Lembrei, lembrei, lembrei”. Nessa noite Ricardinho não quis jantar, esqueceu a fome. Ele havia passado uma semana se enchendo de coragem para pedir isto ao novo vizinho. Ao Junior, foi passada uma ordem. No dia em que ele dirigisse a palavra aquele negrinho, ele iria levar uma surra.
Ricardinho esperou quatro anos para saber que a roupa da Jô era vermelha. Em 1989, ele pode rever a gata comeu em um especial de tarde. E naquele ultimo capitulo, dentro dele, parecia chegar a bofetada verbal recebida por causa de sua condição. Mas Ricardinho, um dia conheceu uma senhora que quis levá-lo para São Paulo, ele foi. Lá ganhou a vida, ajudou seus pais e irmãos. Foi doméstico, diarista, prostituto e advogado. Ricardinho se formou em advocacia. Será que dentro dele, ele quer defender seu próprio direito? Que profissão escolhemos?
Já adulto, Ricardinho comprou vários DVDS. Ele tem a novela inteira. E passados anos, Ricardinho retorna a sua cidade natal. Quando o ônibus parou... ele causou furor. Descia do ônibus uma negra de peito, bunda, toda no vermelho e no tamanco. Ricardinho disse que voltou de vermelho em homenagem a cena que ele fora proibido de ver. De vermelho também porque assim Tiêta chegou em Santana do Agreste. Mas estava faltando mais alguma coisa: Ricardinho chegou com seus olhos azuis, em homenagem a Ana Jacinta de São José (a Dona Beija). Ele ao voltar trazia saudade de uma infância que embora amarga lhe pertencia. Ele sabia que não deu para ser melhor antes. Ricardinho sabia que não podia viver sem essa lembrança, esqueçer a infância seria esquecer dele mesmo. Agora ali diante dos fofoqueiros de plantão, estava aquela negra com o atrevimento da negra Xica da Silva. Em cada personagem da literatura que ele gostava, ele buscava inspiração. Ele foi bem recebido, esta era a primeira vez que voltava. Suas bolsas com presentes logo foram abertas. Ricardinho tinha perdido o seu sorriso. Agora sorrir era olhar e desafiar qualquer um e outro. Foi em São Paulo nos cinemas da república que ele aprendeu a desafiar, a olhar, a conquistar e calar. Na rua Aurora, Ricardinho aprendeu a não temer. Para cada irmão, ele trouxe aparelho de som, DVD de última geração. TV a cores já havia mandado. Seus sobrinhos pareciam não compreender a formatação global do tio. Aqui mais uma vez faz o jogo da hipocrisia. Ninguém diz nada, todos pensam em segredo. E novas crianças se vêem ilhadas em perguntas rápidas e respostas vagarosas.
Quantos Ricardinhos somos ao todos? E é importante salientar que vez e outra é preciso ensinar pai nosso a vigário para que o exercer do oficio não se perca na rotina. Será que começo isto sendo taxativo? Ninguém tem nenhuma verdade dentro de si para o outro. Dentro de cada um há apenas a própria verdade dele, que não necessariamente vem a ser verdade de quem escuta. Não dá mais para se aprender certas coisas com o quebrar de cara. Nem sempre este quebrar está prontificado ao conserto.