Ninguém Me Fez Tanta Falta Quanto Esse Adolescente

Eu fui embora para Fortaleza, ele também. Pode parecer bobagem, mas a selva de pedra contribuiu para que eu o perdesse. Não sabia como encontrá-lo, e distante voltou toda a minha fragilidade. As coisas estavam se complicando e acabei voltando. Vila das Flores era o meu destino. A cidade estava apagada, horrível! Em pouco tempo a cidade se transformara em um rio de lembranças. Cadê o Téo? O encanto que eu atribuia a cidade estava nele. Eu começava a amargar o dissabor dessa coisa rompida. Repito: - Ninguém me fez tanta falta quando esse adolescente. Tenho consciência que apostei numa causa perdida. Agora vendo a distância, eu sei que foi uma grande bobagem porque eu me perdia, sem me dar conta disso. Terminou o ano e voltei à Fortaleza.

Confesso, eu quis vir de encontro, quis saber dele. Um dia, percebi que o amava, até aqui não sabia. Engraçado, eu não sabia que o amava na plenitude da idade: a juventude em minhas mãos. Assumi dentro de mim, que era amor. Não era comum lembrar de um amigo insistentemente. Meu Deus! Então, eu era homossexual.
Eu, homossexual? Não foi só coisa de criança. E quem poderia me orientar? Só o tempo. Eu precisei mergulhar na podridão para conhecer a pureza da raça(!). não tinha mãe, tio, avó, avô, ninguém que pudesse me dizer o que era isso. Eu só via as pessoas atirando pedras, condenando quem já estava pelo sistema. E de censura, eu estava cheio. Passei parte da minha adolescência lendo livros de psicologia e conduta sexual. Se não tivesse sido isso, seria pior a minha situação. Os artigos, as matérias me levavam a fonte do homossexualismo e por mais que fosse claro, eu recusava e pensei que fosse apenas uma fase. Até porque quando veio o impulso de beijar o Téo, li que era normal uma atitude dessa nesse período de descobertas. “O germe estava apenas despontando” – diria um amigo. As pessoas não precisariam saber. Aqui estava mais um dos erros. Isso é bobagem. Todos sabiam e fizeram aquele velho jogo de hipocrisia. Eram hipócritas eles que fingiam não saber e eu que fingia acreditar nisso. E quando as pessoas chegam perguntando: - cadê a namorada? Ninguém pergunta isso inocentemente, então diga o que elas querem ouvir. Sim, eu o amava e precisava vê-lo para dizer. Escrevi para a minha mãe, pedi que conseguisse o endereço dele, mas ela não iria fazer isso e não fez. Ora, se não fosse com ele, seria com qualquer outro, naturalmente. Esse qualquer é terrível! Não sei como suportei essa distância, essa fadiga que me açoitava sempre todas as noites. Quando é um sentimento que pode ser exposto, a gente conversa com um primo, uma prima, sei lá. Mas esse? Restava as horas tolas e perdidas para eu sonhar. Bom, todo sentimento pode ser exposto sim, mas não vale a pena expor o que há de bom em nós, quando o meio social, não merece que nos revelemos. Que horror! Eu estava condenado. Era isso o que se passava pela minha cabeça. Sem o menor efeito dramático, não sei como não me suicidei.