"A AIDS Não Atinge Seres Humanos"

TERCEIRO ATO

Onde andará o meu amor?

Eu guardei meus lábios para o homem que eu amava. A carência não justifica a doença. Eu esperei o Téo, o príncipe de minhas fantasias, eu pensei que fôssemos imperar o mesmo castelo. E veio um homem comum, desconhecido, estranho e simples como um bêbado que vem do bar. Crueldade não é reescrever, agora pode ser quase indiferente, mas sentir, abrir a porta do quarto de motel, e não olhar para trás, nem desejar outra vez o mesmo corpo. Mas em outra versão, eu me sentí o rei da fortuna, gozado, saciado e capaz de renascer para o mesmo gôzo... e nessas vezes tive a certeza que antes do corpo vem a alma. Houve momentos que o abraço e a cama foram gratificantes porque todos os deuses pareciam unidos e calmos nessa batalha de corpos entrelaçados.

Selva de pedra

É sempre decadente. É muita coragem para seguir essa estrada e muito peito para voltar atrás. Duas coisas irmanamente iguais e contraditórias. A homossexualidade não se desfaz, mas podemos abandonar uma quantidade de práticas inúteis. O que elas nos trazem? O arraso. O fracasso. Corre-se risco, nunca se sabe quem é quem e do que são capazes. Cada gay mergulhado no submundo é mais louco que o outro. Um cinema dá o seu testemunho, nem precisa ser um cinema pornô. Em muitos cinemas convencionais, alguns homens entram com suas senhoras, namoradas, e depois de acomodá-las vão para o banheiro. São adeptos da masturbação coletiva. Enquanto isso, as mulheres os recepcionam com um beijo quando eles retornam, e nesse gesto acabam chupando pau por tabela. Não foi á toa que um colunista social rabiscou em sua coluna, uma mostra paralela, durante o festival de cinema.

Eu me tornei um homem impotente diante das pessoas. Aquele encanto perdera a magia. E para lutar contra isso, comecei a dormir com a cidade toda, sem me entregar a ela, ganhei o mundo, as praças como escola gay. Mas para onde eu deveria atirar, se não nesse lugares que embora decadentes, algumas noites a poesia não parecia tão amarga? Onde estavam os homossexuais decentes dessa cidade? Eu sei que em algum lugar tem.... As praças, os sinais, as esquinas e os bêcos são a cocaína dos homossexuais. Será que precisamos ser assim, clandestinos? Latin lovers sem origem? É isso que a gente tem que avaliar, rever, inverter. A carência me levou a conhece esse cabarets sem classe, sem glamour. Lugares onde o fino trato da decência disse adeus, e de costas. Mas a elite faz a mesma coisa, não é só a pobreza. Eu conhecí o submundo com os próprios pés, sentí a inhaca do desagrado para me odiar e me detestar.


Outras noites vieram e com elas o certificado da minha solidão

A melhor coisa depois de uma cama é a sensação de bem estar, quando a gente percebe que não foi só uma cama. Muitas coisas boas foram breves e com hora marcada, assim como quem vai ao teatro e se delicia com uma peça e sabe que uma hora ou outra acaba. Que fracasso maior para um homem que não ter a pessoa que ama?

“Na hora da raiva, eu lhe disse tudo, na hora da raiva eu rasguei o verbo. E falei de tudo aquilo que eu sentia, e o que eu não queria, eu falei também... não me reconhecia, estava quase louca... na hora da raiva, não pensei em nada, perdi a cabeça, e descontrolada... te disse umas tantas só pra te agredir.” - Roberto e Erasmo Carlos.

Muitos anos depois, eu voltei para casa... e tive uma briga terrível com o meu irmão. Para ser sincero, é tão doloroso para mim, dizer meu irmão. Nós somos duas pessoas completamente diferentes, nós “nos odiamos com muito amor.” Nós não gostamos da presença um do outro. Somos detestáveis. Ele me chamou de gay, um dia na hora do jantar, eu gritei com ele e joguei o prato no chão. Na mesma semana, ele insistiu nisso; e eu enlouqueci. Nessa hora, ele baixou o tom de voz e esqueceu a ignorância dele. Eu estava descontrolado e mandei ver. Essa música que a Wanderléia canta no início lembra esse fato. Chamei-os de hipócritas, ordinários; a minha mãe estava presente. Eles me pediam calma, mas eu estava disposto a matar, e disse que eles sempre souberam que eu era gay, que eu sim, fui o último a saber, que eu não precisava deles, que eu tive todos os homens que eu quis ter, que eu havia começado a transar com cinco anos de idade... e não iria parar nunca! Que eu não trocava o meu pior amante por nenhum deles. A frase mais cruel deve ter sido esta: - se juntar todos os homens, de todas as mulheres da minha raça, com certeza as qualidades deles não serão superiores a de um dos meus machos. E podem espalhar isso... eu sou gay! Baitola. Viado mesmo! Não é assim que vocês me chamam? Idiotas, canalhas!

Qual será o pecado de todo homossexual?


Um delegado, uma certa vez disse que a morte de um homossexual geralmente dava em nada. É a mesma coisa que morrer um cachorro. Nunca um jornal noticiou: morre heterossexual. agora basta um homossexual ser assassinado que as manchetes sensacionalistas ganham vida: homossexual é assassinado. Homossexual é espancado. Gay é preso, quando saia do motel. Travesti tem o corpo esfaqueado. Gay é preso vendendo cocaína.

Por que a preferência sexual precisa ser estampada nas capas dos jornais?

A história se repete. Depois veio a AIDS, antes o meio não era tão violento. As pessoas ainda transavam pelo prazer. A violência que se sofria não vinha dos parceiros, mas de uma camada mais distanciada. Existem grupos de extermínio. Assim como a Igreja Católica cegamente castigou os inocentes, acusandos-os de hereges; a AIDS sempre esteve associada a grupos socialmente marginalizados. Declarou uma Americana, em uma convenção do Partido Republicano dos EUA que: - “Felizmente a AIDS atinge apenas os homossexuais, os drogados, os negros... não atinge seres humano.” Nós não temos a obrigação de sermos bons, mas o dever de não praticarmos o mal. Não podemos ser maus com os outros nem conosco. Sobre essa questão AIDS, tenho observado que os guetos sentem-se vitoriosos sempre que sabem que aumenta o índice de contaminação em outros setores as sociedade. É como se isso de alguma forma fosse uma vingança pessoal e uma luta contra o mito da peste gay. Sabemos irmanamente porque isso fora jogado para nós, e aviltamos essa verdade.

Quantos amigos, eu perdi por causa dessa doença maldita? Por causa desse freio moral sem moral algum... Quantas pessoas ainda jovens contaminadas, meu Deus! Vamos ser humanos e lamentar por todos. Assim é menos crucial essa batalha. Infelizmente não serão cessados os corações gelados. As igrejas que tanto condenam os homossexuais são compostas por quem? A maioria sempre ganha, isto é verdade. Embora que na pratica gay essa maioria perca. A religiosidade é uma das mais fortes fontes de hipocrisia: dentro dela uma maioria esmagadora se camufla, se enruste, sim senhores! E será que a hipocrisia é em defesa da boa moral e dos bons costumes? Eu vi pastores pregando o pecado, excomungando o homossexual, e um deles foi meu homem e minha mulher, aceitou pegar mão na cara. Eu gosto de bater na hora do sexo. Ah, meu desejável pastor, tire esse palitó, esqueça esse personagem, apague esse ar de seriedade e venha ser feliz, pelo menos na cama. Também, um padre lutou comigo na cama, nos preparamos para a batalha do sexo. São tantas histórias, a maioria delas, verdade. Isso não é coisa dos tempos modernos, a história antiga está cheia de exemplos. Os gays, os travestis, os marginais, as bichas e os michês; cada uma dessas vidas se resume em infelicidade. Todos se oferecem, são mercadorias estragadas de um velho mercado agora falido. O mercado do sexo entrou em falência... e nunca se praticou tanto. Somos todos neuza suely...na platéia, ou no palco onde somos representantes de amores marginais.