Eu Não Poderia Ser Gay

Sopra o vento norte

Onde a canção me leva...


Frase melhor é impossível! Eu estava voltando para Vila das Flores, um ano depois, para ficar. Por quanto tempo? Quando saimos de uma cidade poluida e partimos para o contato com a natureza, existe uma mudança brusca em nossa respiração, parece que as narinas e o pulmão se enlarguecem. Assim era essa volta.

Como seria nosso reencontro? Muitas perguntas acabam nos deixando agitados. O encontro era indispensável, ia acontecer. O frio me consumia todo. Algo muito estranho soqueava a boca do meu estômago, mas esse regresso à cidade natal foi marcante em minha história. Era ele, o tremor de minhas carnes. Seria o Téo, o elemento incitador do meu desejo? O filho da professora coloriu a minha adolescência.

O sol e a lua na roda da fortuna

Estávamos nos aproximando lentamente... ele era a minha atração e essa atração tinha o mérito da longevidade. A cidade deu em cima. Não compreendíamos o que falavam, para todos éramos gays, amantes, namorados. Cheguei mesmo a pensar em pular essa fase, mas é inapagável. Agora estávamos conscientes sobre o que pensavam a nosso respeito. A minha mãe não queria que fossêmos tão próximos, disse que as pessoas eram maldosas e poderiam pensar mal de nós, mas ela ignorava a fera sedenta que vivia dentro de mim. Numa manhã, entrei em seu quarto, ele dormia, excitado, em uma rede. Emergiu o desejo de partir para o contato fisíco, mas aquilo veio como uma bomba.

Meu Deus! Não. Eu não poderia ser gay. Será que a cidade tinha razão? Será que apenas eu não sabia? E por que que eu tinha tanto tesão em homem? Ele acordou e pediu que eu saisse do quarto enquanto trocava de roupa. Por que isso? O Téo sempre foi muito reservado. Vila das Flores era conhecida na região como a cidade gay – tanto homens quanto mulheres. É possível que nem fosse, o que acontecia era que as pessoas manifestavam suas vontades. Nos anos setenta já existia travesti. Um homem assumir praticamente em um povoado a própria homossexualidade é muito peito. As pessoas não tinham estrutura para conviver com essa realidade, mas o Titico dizia que na capital era conhecido como Terezinha, nas discotecas; mas que em Vila das Flores, as pessoas poderiam chamá-lo de Francineuda. Ele achava que arrebentava a boca do balão e estremecia a discoteca. Levando em conta a sua realidade, o Titico foi muito importante para a evolução gay de Vila das Flores, e deveria estar para nós (a região), assim como Leila Diniz está para a evolução do Movimento Feminista do Brasil. Depois dele, outros vieram mas ele foi pioneiro em assumir-se travesti. Seus antecessores não manifestaram a própria sexualidade, para os próprios isto foi assunto proibido. Agora nesta década surge o Titico para povoar em tantas mentes o que depois Sônia Braga relançou em Dancy days. Ele deveria ser reconhecido como patrimônio das diferenças sexuais do lugar onde nasceu. Digo isso como provocação porque sei que as pessoas o desprezam, o ignoram, o enxergam como sub-raça. Mas é certo que sua contribuição foi mais cidadã que a de qualquer político e qualquer religioso que cheiraram o mofo da hipocrisia ao decretar seus interesses sócio-cultural da cidade.