O desejo pode!
Seria mais prático, menos rugoso se todas as pessoas pudessem esquecer o medo, e pudessem principalmente estar atentas a realidade. Como seria menos agressivo a uma criança se ela soubesse que existem meninos que gostam de meninos e meninas que gostam de meninas, dentro do próprio lar. Quando ela se percebesse, e se criasse nesse universo de possibilidade, ela iria ter o direito de perguntar aos próprios pais: - pai, eu posso gostar de menino(a)? E os pais iriam, se preparados fossem, saber que nada poderão fazer para evitar. Mas ao ouvir isto, o pai quer encaminhar o filho ao psicólogo, aos corredores das Igrejas para que a criança se perturbe e se conforme. Cadê o direito de exercer? De ser? Em ser aquilo que ela é? Algum pai daria essa liberdade ao filho? Graças a Deus que sim. Nem todo pai e nem toda mãe são hipócritas e egoístas ao extremo para esconderem de si mesmos o fato.
Tive uma professora, que tinha três filhos. O mais novo deles adorava brincar de bonecas. Ele era uma criança super afetada, e uma noite na missa dominical, este menino, vou chama-lo de Adrian, estava no primeiro banco da Igreja com uma boneca nos braços. Adrian acalentava a boneca como se ela fosse uma criança. Ou como se Adrian fosse uma menina a fazer de conta que aquela boneca era sua própria filha. Uma senhora, que sempre estava na missa, viu aquilo, se aproximou do menino e disse: - “O que é isso, Adrian? Você é um menino, é para brincar com bola, me dê essa boneca”. Adrian a enfrentou, disse que não iria dar.
- Vou dizer agora mesmo para sua mãe – Insistia a senhora.
- Pode ir – desafiava Adrian.
Esta senhora passou a missa toda inquieta. Achava aquilo um absurdo. Terminada a missa, passou na casa de Adrian, queria falar com a mãe do menino. E ficou chocada ao saber que a boneca havia sido um presente de mãe para filho. A mãe de Adrian disse que não iria frustrar o filho, sabendo da possibilidade. E que faria o possível para que o filho fosse feliz. Qualquer coisa a mãe de Adrian aceitava, menos ser hipócrita com ela mesma. A senhora reclamante ficou chocada, achou que a mãe da criança estava louca. Adrian precisava de castigo. Adrian precisava apanhar para deixar de sem vergonhice. Pois, segundo, os valores daquela senhora, este menino estava sendo muito mal criado. Inconformada essa senhora fez investidas para as tias da criança, e nenhuma vez foi sucedida. Infelizmente nem todo filho é Adrian. Para ele o processo não seria doloroso. Os irmãos o compreendiam, o pai o aceitava. Adrian cresceu, e se é homossexual ninguém sabe. É um rapaz de aparência masculinizada, não fala sobre sexualidade, nem tem amigos gays, nem freqüenta redutos. Ele é aparentemente um rapaz bem resolvido com ele mesmo.
O que se sabe sobre sexo? Sobre desejo? Sobre sexualidade propriamente executada? O que são princípios e como eles caem sobre nós? É estranho, muito estranho a ausência do conhecimento de si mesmo, e por isso é que não podemos resolver o outro. Temos, se possível resolvermos apenas nós mesmos. Nós aprendemos e fomos muito mal acostumados a querer dá sentença para o outro, quando dentro de nós mesmos vive apenas o irreal. Outro dia, fiquei chocado, quando o namorado de um amigo meu, foi ter com um padre. Segundo esse rapaz, ele precisava se confessar, e disse que namorava homens. O padre o aconselhou a terminar o relacionamento. Isso parece e é de fato primitivo ou seja uma prepotência acentuada. É lamentável, é revoltante essa arrogância treinada. Ninguém tem o mérito. Possuímos sim, degraus maiores e menores em nossa inteligência. Como os representantes do bem são tão mal escolhidos! (Na ironia tem punhal e afta para provocar) Os representantes do mal são maus em sua essência deliberadamente. E por isso eficientes em suas funções. Não se pode ajustar o divino na enciclopédia do diabólico. E em nossa essência, sabemos o que realmente nos agrada e nos desagrada. E o que nos desagrada secretamente é o que estamos a todo o momento a praticar. Anulamos na incapacidade o nosso valor real. Nesse canavial de pecado e culpa o que simboliza liberdade, se há o estelionato da confiança? No patamar social, houve antes uma esmagadura, onde poucos puderam resistir heroicamente. É começável a bater o velho para saber que o novo em nada mudou. E isto traz aos ouvidos, Elis cantando: - “ Você é que é mal passado, e não ver que o novo sempre vem... Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”
Hoje eu não sei de quem me deu a idéia de alguma coisa nova. Sei que há tradição de suma importância para o historiador, para o pesquisador, e só.