Eu ainda o amava, isto é quase inegável... E é quase porque eu sei que já tenho forças para negar ou disfarçar. E muitas vezes, eu havia resistido as propostas dele, as tentativas. É pena que eu aqui já conhecia esse homem e me percebia ainda fortemente ligado. Mas como ele minimizou-se diante de mim, ele para ter meu respeito precisaria se agigantar. Acho difícil. Ou não acredito mais nisso. Eu na casa dele, o chamei para a minha cama, ele disse que estava com sono. Fui para a rede, e fiquei abraçado com ele. Ora era silêncio, ora pequenos diálogos. Por que nos desencontramos, eu me perguntava ou perguntava qualquer coisa que pudesse vir como clara resposta. Mas quem pode responder? Estávamos ali, ele parecendo mais meu, no ângulo do cuidado, eu abraçado com ele, assim como um pai acolhe um filho em seus braços. Quem de nós na ousadia do inevitável mandaria o outro ir embora? Ele me tirou da vida dele, ou melhor, rompeu qualquer compromisso. Porque a lei da oferta, o mercado visivelmente oferece coisa melhor dentro de uma concepção miseravelmente míope. Mas há latente alguma coisa entre nós mais que sexo, mais que carne. Nessa noite, eu queria que fosse realmente nossa despedida. Por isso não poderia haver nenhum desencontro para ela. Tudo tinha que acontecer na fluidez do incorpóreo. Espírito e apego, apego e verdades passadas por nós. Mas eu sei porque nos perdemos. O lugar lá fora tem poder, a sauna, o cinema, a boate. Eu o chamei de burro. Ele disse que eu era problemático. Será problematizar, prezar pela ética, pelo politicamente amoroso? Aqui eu poderia lembrar perfeitamente a mesma resposta que todos ouviram lá fora na hora de seus finais. Depois de nosso término essa era a terceira vez que íamos para a cama. Dentro de mim, há coisas que, por mais que ele me abra e me provoque, ele não as terá como respostas. O nosso convívio é silêncio. E dele, infelizmente eu espero qualquer coisa ruim, qualquer proposta desagradável. Apesar de eu saber que ele não é mal, que ele tem um coração gigante. Mas é um ser assim como o pai dele incapacitado. Meu ex namorado gosta de sexo grupal, a sauna ronda o seu universo. Infelizmente. A única coisa que para mim, foi surpresa, foi quando ele me escreveu uma carta bonita por sinal, poética e sentida. Mas sobre o comportamento dele, eu sei, nada pode ser surpresa. O mito já fora demolido. E eu digo isso com muita angústia, com muita tristeza, porque sei que é mais um que se perdeu... e fora vencido pelas regras do savoir vivre.
Depois estivemos na cama novamente, ficamos abraçados, sentindo a respiração um do outro, tivemos um final de tarde agradabilíssimo, sentimos o cheiro um do outro. E ali eu disse não. Não posso mais me deitar com você. Eu precisei ir para a cama com ele após nosso término, por dois motivos: um é que o meu corpo ainda o desejava, o outro é que eu queria testá-lo. Eu precisava saber se o nosso final se deu por uma questão sexual. Não foi isso, ele que não se contentava com um só corpo, infelizmente. E como eu lamentei isso. Mas eu não podia beijá-lo na incerteza de chupar um outro pau...
Toda a tragédia humana, as grandes catástrofes acontecem por causa do homem. É, ele , o homem que propaga a miséria, que promove a destruição do que é belo. Isto é fato, desde o inicio da civilização(?) divulgado. Mas ninguém, nenhum homem quer enfrentar-se diante da conscientização. É, ele, o homem que inflama o próprio homem para a eterna concorrência, instiga o outro a se corromper, a perseguir-se incessantemente por nenhuma causa, e por tanto nenhuma utilidade.
Aonde iremos parar? Porque chegar já parece impossível. Parar no sentido da coisa interrupta. O amor, já foi esfaqueado, estraçalhados todos os corações, arrasados os sentimentos. O sexo tão mágico, quente, intimista já não é mais. Hoje o sexo é coletivo, frio e mecânico. E já foi desvalorizado nos boxes dos shopping, nos boxes de banheiro das casas de forró. Não foi culpa minha. Eu estava no meu canto, ainda puro, quando o amor esvoaçava-se diante de caçadas, caçadores e espreitas.
Lamentável é desejar um beijo na boca e saber que já não se pode beijar voluntariamente sem o medo do gosto do esperma desconhecido. Lamentável o abraço de nosso amante cheirando ao suor de um estranho perseguido no cinema mais micha da cidade, impregnado de naftalina e desinfetante barato. Ele esquece o mito da qualidade que possui em casa. Lamentável a ausência daqueles primeiros beijos longe desse “esgoto a céu aberto” onde chegamos. Responde quem encontrar a frase mais dramática, eu já perdi a palavra mais calculada e com o mesmo peso, a emoção sentida, já perdi na perdição dos amantes fúteis o sonho infantil. O sonho madrugador e primeiro. Por que esta privada encharcada de gente bonita , bela e feia, e no entanto gente?
Saber que não perdi só, não é consolo, muito pelo contrário é monstruoso. É horrorosamente feia a batalha perdida. Onde está a solução para tantas buscas desenfreadas? Quem nevoou o amor gelando tantas camas, com algum corpo coberto por um lençol também frio? Eu sei que você sabe o que é isso. Eu sei que você já sentiu o frio dos lençóis. E sabe o quanto é impotente diante a situação. Algumas vezes ouvimos dizer, alguém sempre diz: - “Não, eu estou só, porque não quero compromisso. É opção”. Mentira. Uma grande mentira. ninguém, nenhum de nós quer estar só. Por que escolher o caminho mais difícil? Ninguém se anula gratuitamente. As pessoas gostam dessa coisa maquilada, e com um tom que soa falsamente. Nós estamos só porque aquela pessoa que nós poderíamos esperar para o jantar, que poderíamos após o jantar conversar abobrinha, beijar o rosto antes de adormecer, não veio, infelizmente. E de repente, veio e nós não nos demos conta disso. E ela foi embora para sempre!