Sangrava o Apetite, E Sozinho Não Me Censurei....

Eu era criança, e quando o encarei pela primeira vez, vi em sua imagem alguma coisa confusa, indiscrítivel. Era como se colocasse uma carola frente a frente como o demônio., mas isto tudo fazem vinte e quatro anos. Eu olhava, embora não gostasse do desenho. A beata não tem força para fugir do pecado. Ele era branco, magro, estatura mediana, tinha os cabelos crespos pintados de louro, usava sempre camiseta. Lembro de seus tamancos combinando com sua sombra azul, e no pescoço uma bela bijouteria, as inesquecíveis gargatilhas.

, fui com minha mãe na casa dos pais dele, e o avistei no alto, entre os canteiros. É certo que havia a curiosidade – diziam que era uma criatura abandonada por Deus. Parecia diante de mim, um quadro onde o pintor inexperiente não mistura bem as tintas e a tonalidade das cores sai distorcida. A mamãe foi muito desagradável ao perguntar a mãe do rapaz se ela não tinha desgosto. A resposta foi imediata e tão cínica quanto a pergunta.

Não sei o que as pessoas vêem de esquisito no Francisco... eu não vejo nada. Ele tem uma namorada em Fortaleza, e vão se casar. Não entendo porque as pessoas gostam tanto de falar da vida dele – finalizou. Essa conversa das duas foi exatamente em 1980. A história se repete: alguém sempre é indiscreto e um outro se faz surdo e cego.

Lá em casa tinha muitos discos, e eu passava horas olhando o rosto dos cantores. Sentia desejo pela fotograsfia. O rosto. O olhar. A pele. Eu beijava essas fotografias e acreditava que o beijo era verdade. Sangrava o apetite e sozinho não me censurei. Isso foi bom, fazia bem, então, era só ninguém saber. Manter segredo e assim realizar a minha fantasia de menino baitola com freio – meu trauma Freudiano. Também na casa da minha avó existia outra coisa que me atissava, uma caixinha com algumas bijouterias, e havia um par de brincos com pressão. Era a glória quando a vovó ia para o rio e me deixava sozinho. Eu imitava a minha mãe conversando com as amigas. Que coisa! Que pensamento atingia meus sete anos. São situações que escondi dos outros, não de mim. Coisas que os anais da minha infância consagraram. Hoje essa vontade passou, mas quando criança eu quis ser mulher. Sempre que brincava sozinho, imitava uma mulher: Gal Costa, Elba Ramalho, Gretechen. Ainda alcancei a era colorida do disco, e isso ficou em mim – a fantasia das plumas e paêtes. Oito anos de idade e o sexo aflorava dentro de mim, assim como um mississipe em chamas. Tive desejos obscenos. Quando olhava um homem. Imaginava logo o pênis dele em minha direção, e fugia deixando tudo no mundo da imaginação. Eu temi ser parecido com o Titico, foi um trauma absoluto. Havia um pavor. É tanto que genuinamente fiquei feliz, quando vi em meu corpo alguma perspectiva de ter pêlos. Pensava eu que ter o peito cabeludo era coisa de macho. A minha irmã tinha umas bonecas, e eu as batizei. Conversava isso abertamente com a minha mãe. Ela deve não lembrar ou não ter dado importância a esses diálogos tão valorosos, eram eles que formavam a minha conduta perante as pessoas. Quando criança fui um mini-gay assim como todos os outros que se assumem mais tarde. Dentro do sistema que vivi, eu fui transgressor da realidade. E agora me dá ânimo falar isso.

Nenhum comentário: