Dúvida

Será que devo escrever mesmo isto? Hoje, eu volto vencido. E juro que talvez, reste uma esperança. Penso no que somos, no que fizemos e no que viremos a fazer enquanto restam sombras. Porque tudo o que se faz é projetado assim. Mas é preciso adentrar a mata, olhar nossas muralhas. Será que temos medo de nossas sombras? Somos pessoas cercadas de paradigmas? Seria melhor não sê-las. Mas somos. E isto é fato. Olhando para traz podemos compreender o agora. E talvez seja melhor algum silêncio do que a propaganda. Henrique namora Pedro, e Pedro propaga o flyer da boate, anota em seu telefone números de boates, bares gays. Será que Henrique ver isso como uma coisa natural? Será que isso é normal? Qual a verdade que aparece como pano de fundo do ver? Pedro fala em possibilidade de um terceiro, e isto é dito com falta de seriedade. E no fundo não há meia verdade? Não há meia verdade porque a uma verdade inteira se derramando. Uma vez Pedro quis passar em frente a um cinema pornô. Henrique para desafiá-lo fez mais. Levou-o, indiferente, a todos os cinemas e algumas saunas. Fazendo isso, Henrique estava determinado a terminar tudo, mas faltou coragem. Há muito sentimento na história dele e não deles. Pedro estava doente, esta é a verdade maior. E quem de bom senso permaneceria ou iria embora? Será que para Pedro o desconhecido, segundo ele, o fascina? Por isso digo que volto vencido. Vencido ao lembrar que muitos Pedros iguais ou piores serão herdeiros da mesma curiosidade, da mesma tendência a promiscuidade, ao baixo meretrício, herdeiros legitimados no desejo. Aplausos para os gays e lésbicas que não tem a curiosidade ampliada.
Eu volto vencido! Isto tem força e o poder de dor. Poder de fracasso. Outro dia, ao conversar sobre religião com Pedro, Henrique sentiu uma acentuada falta de ar. Eles têm pontos de vista diferentes. Pedro acha que a religião está certa. Para se mostrar decente, ele, Pedro, usa uma capa de puritanismo que muitas vezes os mitos apresentam. Henrique acha que Deus deve ser amável e compreensível, no livre arbítrio é o certo. Henrique sentira uma sensação que tudo isso lhe fazia mal, o não conseguir enxergar do outro. Edson tinha 17 anos, começou a namorar Vitor que tinha 30 anos. Edson era puro, virgem. Nunca havia colocado os pés numa boate. E quando se apaixonou por Vitor, o apresentou a família e disse que era homossexual. Logo Vitor quis jogá-lo no mundo do falso glamour.. Edson se recusava a ir , não queria, nada disso parecia ter importância. Mas Vitor dizia que iria, e Edson começou a acompanhar o namorado. Em boates, todo mundo se tornava vulgar. Intragável. E Edson continuava a acompanhar o namorado, e uma vez numa boate do centro de Fortaleza, Edson sentiu falta do namorado, e ficou aguardando-o no mesmo lugar que se desencontrara, mas precisando ir ao banheiro, encontrou o namorado chupando dois paus. Vitor estava agachado, tirava as bolas de um da boca e colocava o pau do outro.

Esse é o panorama, e é bem verdade que se pode aqui haver uma prepotência arraigada ao afirmar isto, mas esta cena que Edson presenciara é fotografada e serve como cartão postal gay. Aqui ainda se fala de uma maioria, e a maioria é assim. Uma maioria com diferencial assombroso. O namorado ir a uma boate acompanhado é flagrado assim, imagine indo sozinho. Não dá para ser bobinho, achar que o namorado tem curiosidade em ver. A promiscuidade não se satisfaz em ver, ela é sentida e resgata a função dela mesma que é o ataque. Os meninos que freqüentam a boate mais chique da cidade terminam a madrugada chupando pau no Love House Nigth (um dos cinemas mais desprezíveis do centro de Fortaleza)

É inútil... escrever. Todo mundo vai continuar se comendo, tudo isso falado é abobrinha até que o hospital São José ateste a grandeza da imprudência. No São José tem mais criaturas agentes da promiscuidade do que vitimas da fatalidade. Luiz pegara AIDS. Que fatalidade! Pensa alguém. Não foi fatalidade foi conseqüência. Fatalidade é a esposa vitima da sacanagem do marido portador. Já que a batalha parece perdida é inútil a qualidade lutar contra a força da quantidade. A quantidade vencera, absoluta!
A decadência chega. E quando ela chega é muito difícil embalsamar o cadáver que já cheira mal. A senhora Águida disse na presença dos dois filhos, em frente a Igreja onde havia se casado há mais de 30 anos: “Sabe, eu estava louca quando casei. Eu deveria ter saído correndo por esta praça gritando. Ah, se arrependimento matasse .” Não deu mais detalhe sobre isto. Mas é sabido o motivo. Seu ex marido é homossexual após o casamento foram morar no interior do estado do Ceará. E lá, seu Renato deu seqüência a sua vida de mentiras, tramas circunstanciais. Depois tudo veio a tona. Uma noite chuvosa, faltara energia, e um relâmpago trouxe nitidamente a imagem de seu Renato e um de seus empregados se beijando na cozinha da casa. Dona Águida já parecia saber das verdades... Certa vez, ela ouvira uma ligação dele com um cara que morava em São Paulo. E seu Renato cantara ao telefone uma música que falava que têm amores que são inesquecíveis. É dito seu Renato porque era um homem de destaque na cidade, ele possuía destaque político social. E ele em nome do sexo e da enganação parecia ser o único a esquecer isto. Aos dez anos de idade Renatinho, seu único filho, viu o pai na cama com um adolescente. A esposa não estava na cidade. Enfim, seu Renato teve sua trajetória embasada na promiscuidade, na não preservação da família. Sexo e adolescente eram a unificação perfeita para o deleite dele. A esposa, embora separada, silenciou tudo. Nunca a família dele soube porque a separação. Águida foi nobre, e voltou para Fortaleza com seu casal de filhos. Se passaram muitos anos, e a promiscuidade tinha dominado as pernas de seu criador... Houve um problema onde ele estava envolvido com menores e drogas, utilizando carros exclusivos da prefeitura local. A questão foi solucionada, mas seu Renato não se deu por satisfeito, ou seja, a promiscuidade não parecia clara para ele. E três meses após esse ocorrido fora preso pelo mesmo motivo. O filho dele, o mesmo que o vira na cama, viajou para tentar solucionar o problema e se deparou com uma promotoria pública toda armada em prova, relatório de menores, familiares. A casa de seu Renato não pertencia a ele, era o lar de todo mundo, quem chegava mandava, a chave pertencia aos seus amantes e servos.
Sim, seus amantes eram vários. Amantes e servos. Geralmente eram pessoas carentes e subordinadas a ele economicamente. O filho dele confessou que na casa, um entrava, pegava um pato, outro pegava o carro, outro pegava roupa, televisão. A vida de seu Renato tinha essa trajetória, foi lembrado após esse escândalo que no dia do casamento dele , um moço chorava muito na igreja, e depois na recepção ofertada aos convidados. Esse moço chorava abraçado a ele. Eles foram namorados, e como o moço resolveu casar-se, seu Renato usou o mesmo recurso. Casou-se para imitá-lo. O casamento já tinha essa base falsa. A história de Renato e Águida já nascia em.... era uma vez uma mentira... o marido não se casou apaixonado, e sabia que não seriam felizes para sempre. Os amantes de seu Renato não eram rivais.... eles sabiam que todos gozavam e se beneficiavam materialmente. Uma das irmãs dele fora para o interior e ficara chocada, diante o lar invadido por estranhos, por gente aproveitadora. Mas fora ele, seu Renato que fez esta escolha. Infelizmente a escolha errada, mas foi a escolha dele. Seu Renato teve mais dinheiro para gastar com os amantes, do que com os filhos e a ex esposa. Agora, ele está vencido, velho e vencido. A coroa já perde as pedras e o peso parece incomodá-lo. Seus amigos se afastaram. Ele, ao longo da vida, rejeitou o amor dos filhos, rejeitou a visita dos irmãos, dos familiares. Estes por perto, representariam a censura, o olhar atento. E ao longo dos anos, seu Renato, segundo a família, vivia muito bem e tinha poder, prestigio. Mas a promiscuidade que o fez ir foi a mesma que o fez cair. Ele fora derrotado. Águida ao ouvir a voz dele tremida, no telefone, percebera o cansaço, a voz tremida irmanada na derrota. Se ele não tiver mais como pagar seus homens estará condenado a não ter mais nada. Mais ninguém. Na verdade, teve todos e nunca teve ninguém. Seu Renato não percebera o caminho da decadência. Porque o seu vicio sexual não era vicio. Não há vicio quando não há percepção. Ele, estragou a vida dele, estragou a vida de uma moça, e em conseqüência disso o trauma dos filhos.

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