Dúvida

Será que devo escrever mesmo isto? Hoje, eu volto vencido. E juro que talvez, reste uma esperança. Penso no que somos, no que fizemos e no que viremos a fazer enquanto restam sombras. Porque tudo o que se faz é projetado assim. Mas é preciso adentrar a mata, olhar nossas muralhas. Será que temos medo de nossas sombras? Somos pessoas cercadas de paradigmas? Seria melhor não sê-las. Mas somos. E isto é fato. Olhando para traz podemos compreender o agora. E talvez seja melhor algum silêncio do que a propaganda. Henrique namora Pedro, e Pedro propaga o flyer da boate, anota em seu telefone números de boates, bares gays. Será que Henrique ver isso como uma coisa natural? Será que isso é normal? Qual a verdade que aparece como pano de fundo do ver? Pedro fala em possibilidade de um terceiro, e isto é dito com falta de seriedade. E no fundo não há meia verdade? Não há meia verdade porque a uma verdade inteira se derramando. Uma vez Pedro quis passar em frente a um cinema pornô. Henrique para desafiá-lo fez mais. Levou-o, indiferente, a todos os cinemas e algumas saunas. Fazendo isso, Henrique estava determinado a terminar tudo, mas faltou coragem. Há muito sentimento na história dele e não deles. Pedro estava doente, esta é a verdade maior. E quem de bom senso permaneceria ou iria embora? Será que para Pedro o desconhecido, segundo ele, o fascina? Por isso digo que volto vencido. Vencido ao lembrar que muitos Pedros iguais ou piores serão herdeiros da mesma curiosidade, da mesma tendência a promiscuidade, ao baixo meretrício, herdeiros legitimados no desejo. Aplausos para os gays e lésbicas que não tem a curiosidade ampliada.
Eu volto vencido! Isto tem força e o poder de dor. Poder de fracasso. Outro dia, ao conversar sobre religião com Pedro, Henrique sentiu uma acentuada falta de ar. Eles têm pontos de vista diferentes. Pedro acha que a religião está certa. Para se mostrar decente, ele, Pedro, usa uma capa de puritanismo que muitas vezes os mitos apresentam. Henrique acha que Deus deve ser amável e compreensível, no livre arbítrio é o certo. Henrique sentira uma sensação que tudo isso lhe fazia mal, o não conseguir enxergar do outro. Edson tinha 17 anos, começou a namorar Vitor que tinha 30 anos. Edson era puro, virgem. Nunca havia colocado os pés numa boate. E quando se apaixonou por Vitor, o apresentou a família e disse que era homossexual. Logo Vitor quis jogá-lo no mundo do falso glamour.. Edson se recusava a ir , não queria, nada disso parecia ter importância. Mas Vitor dizia que iria, e Edson começou a acompanhar o namorado. Em boates, todo mundo se tornava vulgar. Intragável. E Edson continuava a acompanhar o namorado, e uma vez numa boate do centro de Fortaleza, Edson sentiu falta do namorado, e ficou aguardando-o no mesmo lugar que se desencontrara, mas precisando ir ao banheiro, encontrou o namorado chupando dois paus. Vitor estava agachado, tirava as bolas de um da boca e colocava o pau do outro.

Esse é o panorama, e é bem verdade que se pode aqui haver uma prepotência arraigada ao afirmar isto, mas esta cena que Edson presenciara é fotografada e serve como cartão postal gay. Aqui ainda se fala de uma maioria, e a maioria é assim. Uma maioria com diferencial assombroso. O namorado ir a uma boate acompanhado é flagrado assim, imagine indo sozinho. Não dá para ser bobinho, achar que o namorado tem curiosidade em ver. A promiscuidade não se satisfaz em ver, ela é sentida e resgata a função dela mesma que é o ataque. Os meninos que freqüentam a boate mais chique da cidade terminam a madrugada chupando pau no Love House Nigth (um dos cinemas mais desprezíveis do centro de Fortaleza)

É inútil... escrever. Todo mundo vai continuar se comendo, tudo isso falado é abobrinha até que o hospital São José ateste a grandeza da imprudência. No São José tem mais criaturas agentes da promiscuidade do que vitimas da fatalidade. Luiz pegara AIDS. Que fatalidade! Pensa alguém. Não foi fatalidade foi conseqüência. Fatalidade é a esposa vitima da sacanagem do marido portador. Já que a batalha parece perdida é inútil a qualidade lutar contra a força da quantidade. A quantidade vencera, absoluta!
A decadência chega. E quando ela chega é muito difícil embalsamar o cadáver que já cheira mal. A senhora Águida disse na presença dos dois filhos, em frente a Igreja onde havia se casado há mais de 30 anos: “Sabe, eu estava louca quando casei. Eu deveria ter saído correndo por esta praça gritando. Ah, se arrependimento matasse .” Não deu mais detalhe sobre isto. Mas é sabido o motivo. Seu ex marido é homossexual após o casamento foram morar no interior do estado do Ceará. E lá, seu Renato deu seqüência a sua vida de mentiras, tramas circunstanciais. Depois tudo veio a tona. Uma noite chuvosa, faltara energia, e um relâmpago trouxe nitidamente a imagem de seu Renato e um de seus empregados se beijando na cozinha da casa. Dona Águida já parecia saber das verdades... Certa vez, ela ouvira uma ligação dele com um cara que morava em São Paulo. E seu Renato cantara ao telefone uma música que falava que têm amores que são inesquecíveis. É dito seu Renato porque era um homem de destaque na cidade, ele possuía destaque político social. E ele em nome do sexo e da enganação parecia ser o único a esquecer isto. Aos dez anos de idade Renatinho, seu único filho, viu o pai na cama com um adolescente. A esposa não estava na cidade. Enfim, seu Renato teve sua trajetória embasada na promiscuidade, na não preservação da família. Sexo e adolescente eram a unificação perfeita para o deleite dele. A esposa, embora separada, silenciou tudo. Nunca a família dele soube porque a separação. Águida foi nobre, e voltou para Fortaleza com seu casal de filhos. Se passaram muitos anos, e a promiscuidade tinha dominado as pernas de seu criador... Houve um problema onde ele estava envolvido com menores e drogas, utilizando carros exclusivos da prefeitura local. A questão foi solucionada, mas seu Renato não se deu por satisfeito, ou seja, a promiscuidade não parecia clara para ele. E três meses após esse ocorrido fora preso pelo mesmo motivo. O filho dele, o mesmo que o vira na cama, viajou para tentar solucionar o problema e se deparou com uma promotoria pública toda armada em prova, relatório de menores, familiares. A casa de seu Renato não pertencia a ele, era o lar de todo mundo, quem chegava mandava, a chave pertencia aos seus amantes e servos.
Sim, seus amantes eram vários. Amantes e servos. Geralmente eram pessoas carentes e subordinadas a ele economicamente. O filho dele confessou que na casa, um entrava, pegava um pato, outro pegava o carro, outro pegava roupa, televisão. A vida de seu Renato tinha essa trajetória, foi lembrado após esse escândalo que no dia do casamento dele , um moço chorava muito na igreja, e depois na recepção ofertada aos convidados. Esse moço chorava abraçado a ele. Eles foram namorados, e como o moço resolveu casar-se, seu Renato usou o mesmo recurso. Casou-se para imitá-lo. O casamento já tinha essa base falsa. A história de Renato e Águida já nascia em.... era uma vez uma mentira... o marido não se casou apaixonado, e sabia que não seriam felizes para sempre. Os amantes de seu Renato não eram rivais.... eles sabiam que todos gozavam e se beneficiavam materialmente. Uma das irmãs dele fora para o interior e ficara chocada, diante o lar invadido por estranhos, por gente aproveitadora. Mas fora ele, seu Renato que fez esta escolha. Infelizmente a escolha errada, mas foi a escolha dele. Seu Renato teve mais dinheiro para gastar com os amantes, do que com os filhos e a ex esposa. Agora, ele está vencido, velho e vencido. A coroa já perde as pedras e o peso parece incomodá-lo. Seus amigos se afastaram. Ele, ao longo da vida, rejeitou o amor dos filhos, rejeitou a visita dos irmãos, dos familiares. Estes por perto, representariam a censura, o olhar atento. E ao longo dos anos, seu Renato, segundo a família, vivia muito bem e tinha poder, prestigio. Mas a promiscuidade que o fez ir foi a mesma que o fez cair. Ele fora derrotado. Águida ao ouvir a voz dele tremida, no telefone, percebera o cansaço, a voz tremida irmanada na derrota. Se ele não tiver mais como pagar seus homens estará condenado a não ter mais nada. Mais ninguém. Na verdade, teve todos e nunca teve ninguém. Seu Renato não percebera o caminho da decadência. Porque o seu vicio sexual não era vicio. Não há vicio quando não há percepção. Ele, estragou a vida dele, estragou a vida de uma moça, e em conseqüência disso o trauma dos filhos.

Impasse


Este livro não deve mais ser escrito, tudo isso faz mal. Tudo isso é direcionado a destruição do falso glamour. A esparrela do glamour é destruída, e para o mercado, isto, essa destruição não é bem vinda. Talvez o conhecimento de causa esteja ainda se abrindo em conteúdo para ramificar toda a pornografia exalada no gueto. Alguma coisa de fato e erro está danificada quando leva um carinha a descer as calças em uma sala escura de cinema ou boate e esperar que dez ou mais de quinze abufelem seu sexo, seu ânus que passa culturalmente a ser serviço prestado ao macho. O ânus recebe e culturalmente ele fica em desvantagem. O nome do cara não se sabe, isto não importa, assim como não importa saber o nome de tantos outros. Ele desceu as calças, ficou em posição de asa delta, e deu e foi usado e foi possuído por vários homens ao mesmo tempo. A resistência, e não o ato dele, foi digna de aplauso. Aplauso por suportar rola de toda cor, todo tamanho e todo tipo de movimento que variava de acordo com o prazer sentido pelo macho. Terminada a sessão, o corpo do ser não identificado estava banhado de esperma. Ele não pode abrir os olhos antes que a gala fosse retirada de suas pálpebras, de seus cílios. Por uns cinco minutos, ele bambeou as pernas e escorou-se na parede para não cair; outros o olhavam extasiado. Quem olhava traduzia no olhar um misto de admiração e susto, de inveja e medo, de desafio e inibição. O ânus dele estava a sangrar. O mal cheiro de merda exalou, mas nem isso afastou os ainda ávidos por bombar. Aquele buraco passava a ser alvo de disputa e rejeição. A boca dele derramava baba como resultado em conseqüência da sugação de cacetes diversos. Recuperada a caça subiu as calças, disse a todos um muito obrigado e se mandou. Foi embora sem olhar para trás. Era possível que nenhum de seus parceiros nunca mais o vissem. O veriam sim, bastava continuarem em seus redutos. Os mais despudorados... Aliás, não tinha o mais nem menos, apenas uma disputa silenciada e ainda a unificação do quanto mais melhor! Vitoriosos iam embora aqueles que tinham um, dois, três, dez parceiros. E infelizes o que conseguiam só um fica no rastrear da masturbação. Todos ficam assim, é apenas uma questão de tempo, basta ir. Há um provérbio bem popular e já desqualificado por causa do achocalhamento que diz: “quem se junta aos porcos, porco é... e há de comer do mesmo farelo.” Estevão, uma vez, em um cinema, resolveu desafiar todo mundo, toda a força e todo o desejo. Olhou os que estavam presente, e disse em voz alta e em bom tom, que naquela manhã, tarde e noite estava disposto a bate recorde. Ao chegar no cinema as dez da manhã, foi o primeiro a chegar, lá para as onze já havia oito pessoas. Estevão disse que gostaria de engolir rola, queria saber quem estava disposto a comer cu. Dos oito presente, cinco eram passivos, apenas três estavam disponíveis a esse jogo. Mas Estevão estava espevitado, e sabia que os outros cinco não iriam ter nada dos três homens. Estevão teve sua bunda usada, sua boca escovada e lavada a esperma e mijo. Estevão no final da tarde já havia dado para 35 homens, mas ele queria mais, não se dava por satisfeito. Sua busca não se resumia a essa quantidade que parecia ser mínima. Estevão acreditava em poder, em sua sexualidade ativada e no cio. Ele Estava no cio, e diferente de uma cadela não conseguia dar só para um. Dava para todos! Estevão viu a merda descer em sua perna esquerda, e ele sabia que estava arrombado. Foi até a pia, neste cinema havia uma torneira com água, pegou um sabonete que trazia no bolso, e quase sentado na pia, lavou sua bunda em brasa. Depois escovou os dentes, lavou o rosto, e pagou três reais para tomar banho na pousada ao lado que pertencia ao cinema. De volta, ele demonstrava-se insatisfeito. Tudo aquilo havia sido pouco ou não realizador, e pela noite, ele pegou os homens que saiam do trabalho no centro da cidade e que davam suas escapulidas. Estevão pedia mão na cara, pediu violência sexual, pedia brutalidade e excitação. A pornografia verbal parecia excitá-lo: “porra, caralho, filho da puta, me lasca, vai, arregaça, pilantra”. Estevão confessara que antes de ir ao cinema, um ato de sexo com respeito o deixava realizado, mas que o cinema havia corroído seu freio, seu senso. O que houve com Estevão pode haver com qualquer um. O desejo pode! Isto é preciso lembrar. Estevão já estava de quatro dentro do banheiro, a cara quase que enterrada no vaso sanitário... alguém soltava gases mal cheirosas, e ao perceber isto, Estevão olhou a todos e perguntou quem foi. “Não é por nada, mas podem cagar na minha boca. Eu deixo.” O coroa de cabelos grisalhos achou impossível o desafio, e topou. Quem quis ver viu, quem não quis retirou-se. A curiosidade deixou vários homens de olhos arregalados ao verem Estevão de boca escancarada a comer merda. E de boca cagada Estevão foi deixado no chão do banheiro, solitariamente. Sua única companhia era uma lágrima no olhar. Aqueles homens diante de tal cena sentiram-se ameaçados, era como se não encontrassem sentido naquilo. O nojo trouxera a culpa. E alguns juraram não mais voltar.
Isto acontece com os outros! O ser humano nunca admite isto em si mesmo, mas se tratando de sexo sem regra ou regras quebradas, tudo é possível de acontecer. E aqui que tanto se fala em impossibilidades, aqui há uma possibilidade primitiva, acentuada e pairada no “juro que talvez”. Isto é desumano, mas há também aqueles que acreditam que são livres para serem elas mesmas. Mas esta “liberdade” mas uma vez precisa ser grifada assim como a atenção dos semáforos.
Victória Capuleto, personagem da peça homônima, dizia que a gente compra um sanduíche para saciar a fome das tripas, um cobertor para livrar-se do frio. E por que não um corpo que nos acalente a solidão? E conversando isto com Thiago, um trocador de ônibus, que vez e outra pego em serviço. Ele remeteu a tudo isso uma desumanidade da personagem praticada contra si mesma. Thiago é alheio a tudo isso, e falou ainda sobre motivação, necessidade, mas que toda e qualquer justificativa não minimizava o ato desumano, a violência de Victória para com ela mesa. Victória era um homem cheio de conflito, uma mulher não solucionada, um travesti criado na rua, sendo cria da própria crueldade. Vitória era ainda um menino assustado diante a violência praticada pelo tio. Cada pessoa pode apresentar proposta e contra proposta e tentar convencer o outro que ela não está passiva a degradação, ninguém é capaz de vencer a promiscuidade quando ela faz chegada e não é perceptível. O quadro por si se agrava e agravado o quadro é manchado em nome da impureza sexual. Ainda a maldita curiosidade. Falar em diversão gay, fala-se em sexo. Igual ao tóxico depois de provado é associado a grandeza que foi referenciada pelo alucinógeno. A palavra de Thiago é determinante. O termo é desumano e como não sofrer pelo outro? Como não se compadecer com a miséria humana? Com a violação que Estevão provoca em si mesmo? Todo mundo está passivo e sujeito ativo. É necessário enxergar o desmoronamento da idéia. Não era para isto acontecer, mas acontece. Há muitos enganos, na mutação da vida. A ilusão da óptica e a carência adquirida também são irmanadas na vilania, e inimigas impares da coragem. A carência, ela renuncia o ultimo ato da coragem. A carência se alia a atitude suicida de um herói clássico. A carência não foge nem deixa fugir, ela faz permanecer mesmo quando não deve.
Ninguém pode ter tudo. O desequilíbrio discorda disso, mas o desequilíbrio é para ser trabalhado. A natureza deu ao ser a inteligência para definir, para distinguir a atitude e o gesto. Um se enche de detalhe enquanto o outro precisa unicamente do movimento preciso, da palavra falada em nervos de aço. Naquela mesa de bar, a quebra de braço poderia ter se dado com a mesma valentia dos corpos bitolados no sexo. Só que a não discutir, eu gostaria de não ter provocado um debate de idéias contraditórias ao convencimento do que eu ouvia. É possível ir e não se contaminar? Acho pouco provável. Duvido. É praticamente impossível. É possível estar e não ser ou ainda ser e não estar? Acredito, hoje, muito mais no suicídio do homem. Porque esse suicídio é provocado em nome da vida, em nome da liberdade, em nome da diversão. Não quero mais duelar com o meu namorado. Temos pontos de vista diferentes. E de minha concepção que é exibida não abro mão. Não estudei, não pesquisei até aqui para ser convencido pelo primeiro dos últimos curiosos. E como não quero mais dizer nada para ele, “o tempo se abre e mostrará o seu chavão.”
O que é motivo? Necessidade? Conduta? Caráter? renúncia? O que vem a ser a curiosidade? Um antídoto a vida? A morte? Quem ousará resposta? O tempo? O ser humano é minúsculo diante o poder do desejo. Quando o desejo manda o homem chupar o sujo, o sujo nesta hora será chupado. Quando o desejo diz é este, é porque este já foi escolhido. Há uma energia que é esgotada porque não gostaria a razão de ser projetada na verdade que é esta. Embora seja uma verdade de interesse não coletivo. Palavras ditas nasaladas parecem provocar a tortura, o inflingimento da voz, o doer dos ouvidos ao receber em eco: babado, estou bege, dona santa, diague, escândalo, abalou, oi, bonita! Ah, ta, meu bem, e ai? a ta. Divine, ta boa? Passada, a gay. A que problema verbal e mental está sujeito o individuo.?
Uma receita simples deveria ser passada que é o não morrer na solidão, é o ser politicamente correto, ainda que pareça ser difícil. O cara zoado tem quantos corpos ele quiser, mas o vazio vai grita dentro dele. Ao conhecer , eu já fiz a minha escolha, optei por não querer essa vulgaridade toda, me parece nojento. A inteligência não é amigável a essa noitada de corpos libertinos. Direito deles isto é sabido, mas não perde o seu efeito desumano. Stênio e Alfredo pareciam os namorados perfeitos, eram apaixonados por música, teatro. Na verdade um era apaixonado pelas coisas que o outro gostava. O relacionamento deles tinha durabilidade porque nem um nem o outro sentia atrativo pela boate, pelo cinema. Eles sabiam se divertir em lugares comuns, em lugares de todo mundo. Stênio sempre teve sua postura ética sexual, e admirava isto em Alfredo. Amigos gays, eles não tinham, não havia neles interesse nisso. Barracas de praia, para eles também eram lugares que não deveriam ser explorados. Ambos acreditavam que ir a este tipo de lugar era se excluir, era promover o aparthaid sexual. Tudo era muito próximo do povim, da pequenez. Eles achavam bonito a parada pela diversidade quando ela surgiu no Brasil, em São Paulo, tendo Martha Suplicy, Leão Lobo e mais uns quinhentos militantes, depois disso, ela virou um carnaval mal direcionado. Um grito não de direito, mas de aviltamento. Muitos casais mantém seus relacionamentos sem o mofo do homossexualismo porque é sabido que: Há um cansaço gigante sobre a questão. Alguns lutam pela diversidade sim, mas isto é pouco quando a maioria esmagadora está vivendo um esgoto a céu aberto... e propaga isso em nome da liberdade. E nisto parece que ninguém consegue pagar seus tributos, na transparência do justo que seria dar a César o que é de César.
Há muita sanidade em centenas de relacionamentos. E são estes que precisam propagar o relacionamento sim.

O Amigo do Meu Namorado Faz Tudo Para nos Afastar


Isto virou bordão na comunidade. Paulo é namorado de Eduardo; e Eduardo é amigo de Gustavo. Desde o primeiro instante Paulo percebeu a simpatia amarga de Gustavo. Gustavo quer sair com Eduardo porque sabe que o outro não se permite a certas coisas. Gustavo sofre de uma incapacidade gigante. Ele não tem capacidade para atrair ninguém. Paulo já percebeu que seu gostar pelo outro o incomoda. E Paulo até tenta ser agradável em não deixar o outro perceber que ele percebe. O próprio Eduardo já percebeu também, e com o namorado chega a comentar. No reduto isso é muito comum, quase que preciso. Infelizmente pessoas como Gustavo não admitem o acerto do outro, não aceita o outro estar bem, porque ele não está. E começa a construir uma cadeia de situações para afastar o outro. Uma vez Gustavo disse para Paulo que ele se acostumasse com o modo de vida de Eduardo, porque este não costumava dá ponto sem nó, e chegou mesmo a insinuar que a noite o namorado do outro iria aprontar. Na via dos fatos, é muito cruel ouvir isso sobre o próprio namorado, ainda mais quando a afirmação do gênero vem de um amigo próximo. Paulo tem apelado para o bom senso, tem tentando evitar a companhia maléfica, e deixa Eduardo a vontade para fazer sua escolha natural. Paulo acredita que cada um tem o amigo que escolhe, e isto é muito contundente. Gustavo não se tornou amigo de Eduardo sozinho. Os dois construíram essa amizade (uma proeza na vida de Gustavo). Gustavo é infeliz, mas Paulo nem Eduardo poderão resolver este problema que é dele. Alias Paulo não quer nem tem nada com a vida desse rapaz. Mas sabe que a abertura oferecida pelo seu namorado ao amigo é destruidora. Gustavo tem ranço na alma, e pessoas assim desconhecem o essencialmente necessário, são incapacitadas pela própria natureza em manter uma amizade, em construí-la e também reconstruí-la. Gustavo como já foi dito é infeliz, mas Paulo não deve ser remetido a essa história que é do outro.
Outro dia Paulo e Eduardo planejavam dormir juntos, na casa da mãe do segundo, e Gustavo dificultava. Então Paulo se perguntava o que esse rapaz queria? Por que ele agia assim? Você tem vivência no mundo gay? Então você sabe a resposta. Cabe a Eduardo podar as asas e as garras do amigo. Paulo deve manter-se neutro, mas ele sabe que cada vez que Gustavo aparece, é como se a serpente rondasse o paraíso. E segundo Paulo, até outro dia, Eduardo parecia Adão, mas já não parece mais. Adão parece ter perdido a inocência. Adão não fora seduzido como mostra a história; esse Adão aqui, se deixou levar pela sedução. E Gustavo felicita-o por isto. Porque sabe que aquele que caminha com ele não terá mais um diferencial, será igual a ele no desencontro. Isto no amigo infeliz propaga ainda a mancha do não ter se relacionado, do não ter tido capacidade, do não ter conseguido, da incompatibilidade dele com ele mesmo. Isto é muito forte. Será que há crueldade em falar isto a respeito desse rapaz? Cruel ou não, é a realidade. Há uma pequenez diversificada no exercício da baitolagem. E Paulo deveria prolongar isto com o namorado? Claro que não. Isto iria gerar dor de cabeça. A incapacidade se agiganta, e poucas e raríssimas vezes ela é sucumbida por ela mesma. O olho de Paulo se abre e se intriga com todos os sentidos sensoriais. Resta a Eduardo o perceber-se, o compreender-se. E também fazer sua escolha. Gustavo não tem nada a perder porque nunca ganhou nada, nunca teve, nunca fez por merecer. Então precisa ver o outro fracassar para não achar-se fora do ninho. Gustavo é representante com muita lealdade do não recuperado, do que nunca veio nem virá. Ele sabe ainda que o seu gozo nunca foi concebido no prazer, e sim porque soube pagar e mesmo pagando não houve o encontrar-se, o olho no olho. Até seu sonho romântico foi medido na prata, mas o fato é que cada um escolhe em que lado vai estar. Na ausência do pensar, o caminho mais fácil parece ser o imediatismo, mas como tudo na vida, cada coisa traz a resposta, o preço e o apreço. Uma vez, Paulo e Eduardo estavam na cama. O banheiro do quarto de Eduardo tem duas entradas. E Gustavo permaneceu no banheiro enquanto os dois estavam no quarto. Gustavo pode ate disfarçar, mas sua intenção foi projetada. Paulo se criou na rua e sabe como age cada tipo de gente. Será que era interesse de Gustavo participar? Provavelmente sim, porque o tempo permanecido no banheiro foi o tempo concebido de uma masturbação. Mas Paulo não tem interesse nisso, nem quer. E Eduardo? Ele sabia que o amigo estava no banheiro, e agiu naturalmente.(Aqui todos os caminhos parecem e se tornam intrigantes.)
Difícil aquele amigo que diz: -“Você está casado, respeite o seu namorado.” Está todo mundo incentivando a infidelidade e compactuando com Gustavo. Achando mesmo que o amigo tem que aproveitar a oportunidade, não pode perder tempo só porque está namorando. Enfim, namorar tem sido um malabarismo sem apoio na base. Namorar tem sido o risco maior de erros do que acertos. Todo namoro é perfeito até que alguém apareça e interfira nessa perfeição. Mas lembrando-se que cada interferência não é forçada, é autorizada. Há aqueles também que já aderiram o método do fica coletivo. Sai uma turma de amigos (ficantes), e eles beijam entre si, todas as bocas presentes. Ninguém fica de fora. Nisto comprovadamente não há prazer nenhum, apenas a sensação da ilusão. O beijo coletivo não é prazeroso. A substancia que é subtraída no beijo não pode ser climatizada na rapidez em que há a troca de boca. Comprovadamente essa pratica não é atrativo do desejo, pode ser isto em nome da irreverência, do modernismo, mas não em nome do desejo. Sem esquecer que o beijo é mais intimo que uma relação sexual.
Não se pode ser homossexual(!) sem optar pela inteligência. O requisito maior do ser gay é aderir a inteligência. Aquele que não adere a inteligência nunca fecha a carteira, porque esta fechada significa mesa vazia. Gustavo desperta em Paulo ao mesmo tempo desprezo e piedade. E por conseqüência dessa piedade é que Gustavo se torna tolerável. Paulo tem pavio curto, mas por amor sabe agigantar o pavio. E nisso há sapiência, ciência, referência para quando o outro chegar e provocar sepsia. Tudo isso é muito próprio da canalhice, do mau caratismo. Ele não sabe construir e precisa recorrer ao baixo nivelamento da existência que é a destruição das coisas. E isto para as suas ações são normais, são próprias de um amigo. Definitivamente o primeiro mundo tem razão em desqualificar o lixo do terceiro, um lixo que por si não será reciclado, reciclável. Não será reutilizado porque precisa ser expurgado. Esses são os verdadeiros demônios, são os agentes do mal. Isto não está ligado a condição homossexual, o germe é do ser. É possível porque aqui há muitas possibilidades. Elas estão sendo nutridas. A condição ferida de Paulo nessa interferência vista é acatada na passividade. Não se pode ter nada contra o cinema pornô. Ele esta lá com toda sua objetividade. E para ele vai quem imbecilmente quer, bate no peito e diz que pode ir sem nenhum problema. O problema na está somente na boate, é um conjunto. O problema está quando se ver encanto, fascínio que pode ser extraído dele mesmo. O homem é sujo, ele se deixa veicular em redutos dentro de uma miscigenação de urina, suor, mofo, insosso de esperma e merda. Para algumas pessoas o sexo quanto mais sujo melhor.
No cinema, todos se exibem com suas carências intermináveis, mas o último expediente é o “carão”. O homem carão que faz pose, que se mostra como alheio a tudo isso. Fazer pose de hétero tem despertado nas bichinhas o complexo da conquista. O Carão diz que nunca aconteceu antes, que é casado, que tem namorada. Que é só por curiosidade, e começa a mexer com a libido dos outros. Todos são da mesma espécie, donos e alimentadores da mesma vaidade. Fortaleza especificamente existem dois cinemas pornô; os outros que se denominam cinema são casas de putaria, precárias, sem estrutura. Não se sabe que papel exerce a vigilância sanitária. Os puteiros estão invadidos por policiais michês e bombeiros fardados que fazem programa no fetiche da farda. Há quem goste, há quem pague. Quem bebe dessa fonte, sempre a ela retorna. É lamentável na boca a saliva, o sebo. É lamentável e não descartável. Os cinemas apresentam homens com seus “sex appeal” em vitrines facilmente masturbável, mas sem o menor atrativo. A verdade é que o universo moralmente sexual não tem mais o que dá. E isso parece ser defendido por quem perdeu a visão de si mesmo. Na caçada noite adentro, sempre haverá dois na gangorra. Os corpos são lambuzados e relambuzados, a espécie não se sacia - quanto mais melhor! O corpo já não consegue gozar, mas não está saciado, quer mais, precisa de mais. O precisar é interminável, e o órgão sexual dos ativos já não obedecem e mesmo não se excitando, eles permanecem lá, na companhia dos passivos que serviram de deposito. Mas um detalhe vale salientar: na companhia apenas visual. Porque raríssimas vezes se cumprimentam, raríssimas vezes são gentis em alguma resposta ou pergunta intimamente sexual.
Bernardo acredita que já não dá para confiar em mais ninguém. A idéia de pensar que seu namorado freqüenta o reduto o deixa impotente. Estevão consegue descrever com precisão o que vem a ser tudo isso. Ele acredita que a ociosidade é prostituível ao ser humano: mente vazia e não trabalhada para o consideravelmente sadio, leva o ser a depreciação de si mesmo. Na tela do cinema, disse Estevão: -“ Eu nunca vi um filme, mas sou um cinéfilo incorrigível. As vezes juro não mais voltar, mas volto na primeira oportunidade. Não vir, deixa em mim, uma sensação que algo de bom poderá acontecer. E se eu não estiver presente vou perder”. Estevão reconhece que lá dentro não tem ninguém irresistível, e que se todas as pessoas fossem observadas, elas seriam rejeitadas. Ninguém é irresistível, todo mundo é fácil e se dar. Os cinemas são improvisados, alguns nem água tem. O perfume vencido se alastra nas divisórias junto com o fedor de merda, mas Clever acha isso comum. Aquele mal cheiro já se tornou familiar. Clever confessa procurar um amor e que pelo menos uma vez na vida gostaria de ir para a cama por amor. Willian, um tipo interessante, a textura da própria pele já dá pista de sua vida financeira bem sucedida. Ele passa, e seu corpo com músculos exatos parece dividir-se em cada gingado. A bunda tem movimentos precisos, os braços são donos de uma atitude quase impar, seu olhar é matreiro e o sorriso aberto assim como o sol. Muitas vezes, ele fora confundido com um michê, mas Willian transa somente pelo prazer. No inicio, ele causava furor, todos o procuravam para o possuírem ou por ele serem possuídos. Dizem que Willian tem o beijo amaciado, mas hoje ninguém quer mais beijá-lo, fazer sexo com ele perdeu a graça. Então, Willian está sempre mudando de reduto. Uma atitude sem sucesso porque em todos os lugares estão sempre os mesmos. Os viciados no sexo se dividem entre os cinemas e as casas de putaria que chegam a uma somatória de vinte aproximadamente. Nos finais de semana, essas mesmas criaturas encaram suas intenções ao religiosamente assinarem ponto nas boates espalhadas pela cidade. Onde o dark room espera e faz sua próxima vitima. É bobagem dizer que boate A é derrubada e que boate B é chique.
Dentro delas, todos são da mesma argamassa. E antes mesmo do álcool ser responsabilizado, o desejo sexual já estava instalado. A sociedade não tem mais para onde apelar nem fugir; não tem mais como responsabilizar o outro; é ela que se junta a somatória do bocejo individual. Ainda no cinema. Bocas sedentas disputam o mesmo pau, numa referência aos bichos famintos a disputarem o mesmo grão de milho. O carinho se perdeu, e nesse jogo carnal onde reencontrá-lo e redirecioná-lo a patologia do ser? Cinema não é lucro sexual e nem luxo mínimo do conhecimento. É fracasso na integra. O que leva alguém a um cinema? A vontade parece e é a resposta menos inteligente. E mais uma vez quem ousaria responder? Onde estão os homossexuais decentes da cidade? Eles já nascem corrompidos porque assim os pais os conceberam ao escolherem a cor do quarto do bebê.
Outro dia, eu sai com Fernando. Ainda não o conhecia pessoalmente. Tudo o que eu sabia sobre ele, era através dos amigos. E Fernando se tornara querido assim, através da propaganda que chegava, e todas essa referência era amorosa. E o conheci, e ele de encantador é encantatório. E diante aquele vai e vem, ele me confessava que não precisava ter nenhuma daquelas pessoas. Elas poderiam olhar para ele, cabia a ele não dar cabimento nem respostas favoráveis aos cortejos, porque sabia que tinha um amor. O namorado dele estava viajando mas o respeito é intransferível. Isto foi deduzido. E será que Fernando perde em não corresponder o olhar? Em não aproveitar a ausência do outro? Fernando não perde, Fernando ganha porque ele tinha a qualidade e a referência dentro de casa. Fernando sabia de onde vinha o homem que ele amava. Pessoas como Fernando são sementes do bem, e não podem ser descartáveis. Fernando era loteria, e o namorado dele precisa compreender isto. Fernando não é bijuteria, é jóia rara, é fina estampa. Homens como ele são capazes de reescrever a história tendo por base a aprovação de Deus e de toda virtude moralmente social. Mas como de todo condenar o cinema pornô, se nele há uma mistura do bom e do mal? Acabei de receber uma ligação, onde ouvi que não se deve ser taxativo com o cinema porque ele já foi palco de grandes paixões. Sim, foram também palcos de grandes paixões, e estas paixões não tiveram os mitos por base. O cinema está lá testemunhando o esmigalhar da existência filosoficamente comprovada. Nenhum cinema do mundo será advogado, e sim, juiz.
Silvio é outra figurinha facilmente encontrada nas tardes de segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo nas casas de putaria da cidade. Silvio perdeu o interesse por ele mesmo, sabe que não tem coragem de dizer “não” a tudo isso. Dizer: “não” - significa o vazio da ausência. E dizer “sim” – significa a ausência no vazio. Então, Silvio se deixa guiar, se deixa cegar. Porque para ele, se tornaram terríveis as duas coisas: o vazio e a ausência. Elas se dilaceram e se apresentam como vilãs da própria vilania, que é a perca da coragem em renunciar. Não é fácil ser gente. Ser detrator de si é a coisa mais acessível que o ser humano tem ao seu alcance. Na detratação o ser perde todas as referências sociais, humanas, familiares e amorosas. E nisto o encarar o outro começa a ser anulado em nome do cinismo que não é maldade, mas a perca de valores. Precisamos de valores? Se precisarmos de humanidade, precisamos de valores. Eles caminham juntos em uma referência branca a ser completa no encontrar-se feliz e total. Mas a totalidade é frutificada na ausência que justifica a busca. O ser humano busca a totalidade dele matematicamente, e isso não é de todo inteligente. O preenchimento da totalidade deveria ser filosófico. Em um espaço aberto: um, dois, cinco, dez corpos... A quantidade varia de acordo com o dia da semana. Mãos, bocas e pintos, sussurros e carnes inflamadas se ensaiam em percepção do gozo. Cada um goza e abandona o campo de batalha até restar o último que passa categoricamente a ser o primeiro. E chega mais outro e mais outro, e o quadro se completa. Novo gozo se concebe e novos (para o momento) pintos são engolidos, novas gargantas são fonte de gonorréia junto de bundas que se abrem. E há confusão de fonte e receptor. Ninguém sabe mais qual é a fonte de AIDS e nem o receptor do HIV, HPV, herpes, hepatite e etc. Eu estava lembrando de um rapaz que sempre que ele se dirigia a esses lugares, propositalmente feria a gengiva e a garganta. Isto era uma tentativa dele de contaminar quem pudesse. Ele era portador. Edgar era portador também. João era receptor. O cinema junto de outros redutos passa a ser concepção de AIDS, sífilis e gonorréia. O dark room é uma extensão do cinema, é o novo atrativo da boate. Na boate a decoração não é tão chamativa quanto a escuridão necessária(?) o dark room passa a ser o centro , a última moda inventada pelo gênio da promiscuidade. Meu Deus! Como lá dentro encontrar alguém interessante? Isto é desnecessário. Lá dentro qualquer um é encontrado e encantador. Sente-se apenas o cheiro, a beleza é imperceptível. O atrativo maior é o mastro em posição de ataque ou a bunda ao alcance das mãos, e não exibível ao olhos porque a escuridão não permite. E haja garganta profunda a ser invadida por movimentos bruscos de um quadril sem forma, de um cara sem rosto, nem corpo, apenas tato e um avanço promiscuo. O promiscuo em nome da própria promiscuidade paga o seu gesto com a própria inquietação mental com reflexo na sexualidade. Detalhe! Em dark room é sabido entrar sem celular, sem carteira porque lá dentro não há espaço para nenhum tipo de honestidade. É injusto lá dentro ser honesto consigo mesmo. Lá no chamado inferninho deve entrar aquele que perdeu a ultima esperança de estar limpo, sadio. O homem, segundo um escritor gay, é o ser mais fascinante que ele já viu. O homem de peito nu ao vento, sadio.
Foi revoltosa a declaração de um arcebispo quando este falou em desequilíbrio humano o fator da homossexualidade. O homossexual reclama, contesta afirmações desse tipo e outras tantas, mas é ele quem incita a sociedade a pensar assim. O homossexual perdera a causa porque se tem praticado isto. Não se sabe mais o que é preconceito nesta estância porque a pratica tem transformado em conceito. E quem tem razão nessa planilha embasada no bater e rebater? O bom senso, ele vai apelar sempre pela coerência. E sendo demasiadamente realista. Ninguém vai a um redutor inocentemente. Vai ao reduto quem quer algo, quem quer deparar-se com o que é nutrido dentro de si. As saunas apresentam em seus Flyers os atrativos da semana.
Segunda feira: nudismo e stripper com os melhores da cidade.
Terça: dia da toalhinha com direito a uma dose de whysky e o melhor da música brasileira. Cine erótico , sauna seca e a vapor, sala de leitura, (apenas revistas de sexo estão disponíveis e panfletos explicando como se evitar HIV)) dark room e etc e tal. Tudo isso acompanhada por go go boys (denominação dada aos michês da atualidade) que oferecem seus fantasiosos e propagados vinte centímetros.

RELACIONAMENTO

“Os amores são tão mal cuidados”, os relacionamentos cada vez mais escassos. Ninguém é de ninguém. Toda mundo aplaude esta frase de Zíbia Gasparetto. Mesmo sabendo do que se trata, eu não aplaudo, o ideal seria que alguém fosse de alguém, e soubesse cuidar da melhor forma possível, cuidar da forma mais tênue até. Bom, hoje, ninguém assume ou aceita o relacionamento. Esta opção de vida compartilhada está cada vez mais ignorada. Zombada. O compromisso parece ser o último dos ideais pensados: - “Pra que querer está preso a alguém? Se em uma boate se pode ter um, dois, dez sem nenhum envolvimento maior? A minha vida é muito corrida, não tem espaço para ninguém”. Na boate o desejo é carnal, é o divertimento disfarçado no apetite sexual. E quando se tenta assumir um compromisso, ele é esquecido na presença do novo que tem circunstancialmente um corpo mais interessante, e as vezes nem isso. Nesse desfreio é observado que as qualidades de alguém e a ética estão cada vez menos absorvidas. Vivemos o mundo do prazer, da cama sem lençol. Ser bom, legal, leal não tem mais nenhum aperitivo para a afetividade. Que pena! Quem perde com isso? Eu? O outro? Todo mundo. O corpo descartável é cada vez mais prático assim como o copo, a garrafa, etc. Se o ato sexual for bom, pergunta-se o nome de quem deitou com a gente, se não for, não precisa dar-se ao trabalho da pergunta. E o parceiro, sabe disso e obedece a regra sem questionar. Meu Deus, como a composição de Roberto e Erasmo Carlos cairia bem aqui: "Eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes. Eu pensei que já não me lembrasse de coisas passadas. Eu pensei que pudesse enganar a mim mesmo dizendo, que essas coisas da vida em comum não ficavam marcadas. Não pensei que me fizessem falta umas poucas palavras. Dessas coisas simples que dizemos antes de dormir. De manhã o bom-dia na cama, a conversa informal, o beijo, depois o café, o cigarro e o jornal. Os costumes me falam de coisas, de fatos antigos. Não me esqueço das tardes alegres com nossos amigos. Um final de programa, fim de madrugada, o aconchego da cama, a luz apagada. Essas coisas só mesmo com o tempo se pode esquecer. Então eu me vejo sozinho como estou agora, e respiro toda a liberdade que alguém pode ter. De repente ser livre até me assusta. Me aceitar sem você certas vezes me custa. Como posso esquecer dos costumes, se nem mesmo esqueci de você."
Quando se pergunta a alguém como foi o seu ultimo encontro, esse alguém vai dá uma resposta. Sim, uma resposta com artigo indefinido. E se perguntarmos a essa mesma pessoa como foi o seu penúltimo encontro, ela irá dar a mesma resposta. Talvez mude apenas o cenário e o personagem. Mas o que o personagem personifica é o mesmo ideal do anterior. Mas o essencial aqui é vago. Agora compreendo uma frase que um namorado que tive colocou no MSN. A frase é do livro o pequeno príncipe: -“ o essencial é invisível aos olhos.” Algumas pessoas se direcionam para as diversas boates da cidade em que moram, beijam dezenas de bocas, mas um relacionamento não aconteceu. Apenas o gozo como primeiro e ultimo representante do ultimo final de semana. Um rapaz, uma vez disse que dentro de uma boate ficava louco, não sabia com quem ficar. Só tinha a certeza que queria todos. Nisto se perde a solidez, nada é edificado, e a alma escala a corrupção sexual. Esse rapaz tinha namorado, nem pensar em levar o namorado consigo para a boate. Queria estar livre lá dentro. O impulso sexual é absoluto. Como? Está sozinho porque quer? Isto é mentira para enganar a você mesmo. Não aos outros. Porque os outros possuem a sua substancia e sabem a dor dos lençóis. Galinhar também é uma incompetência do não saber.
Outro dia eu acordei pela madrugada, e meu amor estava dormindo, e me pus a observar a sonolência. Cuidadosamente estendi o lençol sobre seu corpo, e o beijei na face. Isto é relacionamento. Dor de cabeça? Cobranças? Estar preso? Isto é melhor que a liberdade passiva de prisão. Relacionar-se é antes de tudo o aconchego de um abraço dado com afeto e com referência. Quem terá alma e sentimento para cantar “Noite do meu bem” de Dolores Duran? Somente quem tem relacionamento ou a força de uma saudade. Somente quem conhece o gosto doce com pequenas camadas de algo azedo, as vezes, mas isto é relacionamento. Na era da praticidade se tornou insuportável dividir a cama, é inaceitável o dividir do shampoo, da escova. E quando alguém se predispõe a isto, ele espanta qualquer pretendente. Então parece que as relações precisam ser moldadas, tudo muito roborizado. Ninguém perde sozinho. Essa perca é coletiva. Relacionar-se é pré-disposição para entrar no outro, e para que esse outro entre no nosso mundo. Na nossa intimidade que começa a ser invadida a todo instante. Quando um relacionamento não se propõe a essa abertura, algo está errado. E não se pode também esquecer de levar muitas coisas para a balança, na sapiência que um caminhar juntos não é construído impunemente. Antes de tudo ter alguém é doar-se, é cuidar, é planejar uma festa juntos, uma viagem. E em nome da galinhagem não se tem dado importância a isso, que mais tarde a vida vem a cobrar. Ter do que sentir saudade é fabuloso e não saudosismo como pregam os destemidos e conseqüentemente arruinados. Sentir saudade é divino e humano. E quem mais tarde haverá de sentir saudade de um cinema? De uma boate? De uma sauna? De uma trepada no escurinho do cinema? Sentir saudade é ainda querer ir de encontro a uma referência que é só sua. Mas para que haja compreensão do isto, é necessária a sensibilidade que é outra coisa escassa no aplaudir do concreto. E nisto é conscientizado que a escolha é de cada um. Pessoas inteligentes optam pela dor de cabeça, pessoas inteligentes não fazem do sexo o centro, elas aprendem a gostar e a valorizar o outro. E dão a cada uma das pessoas a importância que elas tem em um dado tempo. É preferível anoitecer e pensar no boa noite, é gratificante amanhecer e dizer e ouvir um bom dia, amor. Estar no meio da tarde, telefonar e saber como está sendo o dia do outro é viver. Não é visto muito sentido, se não houver amor. Amar causa sofrimento, o desejo causa sofrimento. O maior sofrimento que o ser humano pode atingir é o vazio que é a ausência de tudo, ausência do não ter tido, do não ter buscado. Shopenhauer fala sobre isso, fala sobre essa dor na busca do desejo.
As pessoas constroem suas coisas e causas que são esmiuçadas, e nesse esmiuçar cada um se mostra inteiro. Ninguém engana uma vida inteira, aqui posso com todo o peso da derrota dizer que meu namorado, aquele cara que no começo eu chamo de meu amor não tem diferença nenhuma dos que galinham e gozam no obscuro. Escrever esse livro para ele, pode ter sido um manual do encontro e do desencanto. Isto é com ele e não comigo. Por isso que deve ser portada muita responsabilidade em tudo. E tem gente que tem um relacionamento estável, um companheiro; e a todo o momento parece esquecer, está a desvalorizar o ético, o politicamente correto. Mas isto, não é pertencente aos dois: o domínio precisa ser individual. É na saúde, na doença, na alegria, na tristeza que devemos estar próximo. É fazer um chá quando necessário, cobrar um exame médico, é sorrir e abraçar na hora que um problema parece trazer confusão mental e cansaço. Há muito prazer numa relação a dois. Ir a uma padaria comprar pão, enquanto o outro prepara um café é magnífico e doce. Uma vez fui à praia com o meu namorado, e quando eu já estava chegando em casa, o telefone tocou. Era ele, me chamando para almoçar: “Venha, enquanto você chega eu preparo.” Esses gestos pequenos são os que constroem os grandes. Isto é o esmiuçar do amor. É a situação se dando e se transcendendo em detalhes significativos. Por que não se pode estar atento a essas coisas? São essenciais no ramificar. Como é bom escolher o caminho do laço, do compromisso, isto é sadio. Não importa se o parceiro é pobre, rico. O importante é a importância em dar importância. Não vai ser o carro do outro, o apartamento que poderá dar tempero ao amor, e sim, a atitude precisa, e quando necessário o olhar de reprovação sem palavras a mais. Uma atriz de teatro, uma vez disse no camarim, enquanto o elenco se preparava para entrar em cena: - “Eu tentei ser senhora, mas nasci para ser puta”. Naquele momento a frase parecia engraçada e provocou risos. E ao lembrar disso agora, eu gostaria de refazê-la pelo menos dentro de mim: - “Eu nasci para ser puto, mas optei por ser um senhor”. Será que ninguém lembra que vai envelhecer? O tempo de construir relações é agora. Depois é o quadro sofrer grandes agravantes.
Vamos ser realistas? Eu olho para traz e vejo um afeto de alguém que amei, uma lembrança legal de outro alguém, sinto o cheiro de um perfume e sou remetido a outro alguém. Isto são detalhes que ficaram em mim, ou seja, em nós. Portanto é evasivo o discurso falho porque ele não é aceito, não tem uma validade. A caça sem mero propósito é abominável. Os homossexuais precisam acabar com esse vislumbramento tolo, que é essa mordaça sem lei. Uma nova comunidade é convidada a se erguer, a ser construída no politicamente correto, no politicamente favorável às circunstâncias que hão de ser melhores. Quem tem medo do escuro? Quem tem medo do amor? Tem gente que quer se punir e descarta qualquer possibilidade de ser amado e de amar. Isto é a incapacidade do permitir-se relacionado. Fugir do amor? Nunca. Para a reconstrução de uma sociedade seria necessário rever a “Guerra dos meninos” de Roberto Carlos. Aqui pode se ramificar respostas desinteressantes e justificativas vencidas.

Houve uma pausa.

E foi pedido a um rapaz para ler isto. E em seguida ele respondeu:

- O problema é que todo mundo machucado não consegue mais se dar.
- Machucado? Por que?
- Por causa dos relacionamentos anteriores, onde a base foi mentirosa. Então depois de quebrar a cara fica difícil.
Isto pareceu coerente. Só que é uma resposta intragável perante o apontamento de uma nova estatística. Meninos de dezesseis anos estão nesse mesmo panorama. Acham a mesma coisa. Será que o fracasso já nasceu com a pré-disposição dele mesmo? É falho achar isso. E o que vem a estar por trás dessa busca do encontro? O romantismo? Deveria. Mas nem isso é mais necessário. O necessário agora é dignidade. O homossexual se tornou um vulcão sexual. Chega desse rebatimento açucarado que os héteros também fazem a mesma coisa. Sabe-se disto, aqui não há ocultação dos fatos, mas não estamos a rebuscar mais justificativas para o assim deve ser. E até porque os héteros são resguardados pela hipocrisia social, enquanto os homossexuais são agredidos pela hipocrisia sexual. Há nisso dois paralelos que na vergadura irão se cruzar. Você alguma vez tentou se relacionar? E como foi isto? Em que deu? Quem se mostrou bonito? Feio? Quem foi desonesto? Lembre-se que as pessoas só dão o que elas podem dar. Elas também são incapacitadas. Já vivemos a era das senhoras, agora vivemos a era das cachorras. A luta das mulheres onde será silenciada? Na comédia dos bichos. Isto vai do grito das cachorras até o sacolejar da eguinha pocotó. Estamos abrigados nos escombros da ironia. Enquanto no passado tivemos heroínas, hoje temos grandes vilãs que são vitimadas no sexo. É preciso uma orientação visível sobre aquilo que é o bem e o que é o mal. As grandes campanhas dos governos contra a dependência química não tem sido absorvida. Não por causa do governo, e sim por causa de uma população preguiçosa mentalmente. E a sexual nem falar então. É preguiça de pensar quando se escolhe o caminho mais difícil. Já foi vivida uma sociedade religiosa, e ela falhou. Já vivemos uma sociedade civil, e ela também falhou. O casamento se tornou para a sociedade uma instituição e fracassou. E agora vivemos uma sociedade prostituída. Ou será que sempre foi? Tudo isso é fruto do mal relacionar-se.
Ainda sobre relacionamentos. Conheci dois médicos que são namorados e dividem o mesmo teto. Eles começaram a descuidar da relação e deles mesmos. O que eles fazem hoje, após dez anos de convivência? Eles fazem agenda, cada um programa sua diversão. Um vai ao cinema pornô; e o outro vai também a outro cinema pornô. Eles tem todo o cuidado para não irem ao mesmo lugar. O que é isso? Em nome de que? Será que a filosofia explica? A sociologia? Normal? O sexo é absoluto! E ele depois de dominador castra o único inventivo do respeito. Sem moralismo, mas isto não é coerente. Eles podem ter todos os homens do mundo, e segundo eles, dizerem para o outro é uma forma de fidelidade, ou melhor, lealdade. Entre eles só não é permitido a troca de telefone, nem a repetição de corpos. E como é que se joga os dados nesse quesito? Será que eles já não conseguem misturar sexo e amor? Tem muita gente que diz que não consegue misturar as duas coisas? Tem gente que acha que a um se deve amar, e a outro deve ser dedicado a predominância sexual. Em que instância da liberdade esses dois médicos recorrem? São dois homens agradáveis, gentis, e pra que essa deficiência adquirida? Sim, adquirida porque ninguém nasce traindo ou mesmo mentindo. Isto é uma deficiência de conduta. E nos relacionamentos existem também aqueles que são traidores e sacanas, porque além de trair o outro, ainda ameaça o relacionamento com troca de telefone e contatos posteriores. Dói saber, mas o mesmo cara que eu chamei de meu amor, fez isso. E tentou encontrar em mim alguma desculpa para que nos separássemos. Em um sábado de carnaval à noite, ele inventou uma briga qualquer, me provocou a isso. Pela madrugada, me pediu desculpas porque eu o joguei na cama. Pela manhã na praia, eu o vi enviando mensagens para alguém no celular. Depois, me chamou para uma conversa, tentando me convencer que nossa relação não estava boa. Foi quando eu joguei isso na cara dele... na noite, sexta, anterior, ele havia me traído. Depois, ele tentou me convencer que não. Mas nessa hora eu lembro que tenho histórico para discernir uma verdade de uma mentira. Eu o desculpei, mas não o perdoei. O que é mesmo que cada um estar querendo? Quem de bom coração resiste ao olhar não tentador, mas oferecido do outro? Nessa hora é preciso recorrer a Sigmund Freud, Nietzsche, ao Albert Einstein, Alan Kardec. Ainda não foi explicado porque o fascínio da quantidade, da diversidade se torna a todo instante o último recurso entrelaçado no primeiro. Somos mutantes, mutáveis assim como as virtudes. E chega um momento em que o outro deixa de ser vidro, e passa a ser por nós mesmos, o qualquer e tanto faz.
Estar todo mundo a reclamar que ninguém quer nada com ninguém. E nisso não há o compasso da reflexão, mas há pressa em alcançar essa mesma visão, na aptidão própria em querer ver a fila andar. Como é que queremos uma afloração saudável na reconstrução de nossa sexualidade, de nossos vícios, se não somos capazes de fugir de redutos e estigmas? A boate tem sido a coisa mais encantadora, mais falada, mais poderosa para o gay. Ele não vive sem ela. Ele é perfeitamente capaz de renunciar um compromisso com o cara mais decente do mundo, mas a sua união com a boate é solidificada. As boates são destruidoras até na essência. Elas funcionam como elementos incitadores. A boate é estranha e, portanto hostil. Mas há quem goste porque ela deixa todo mundo desejando e sendo desejado. O desafio da conquista é forte, e o apelo maior é o dark room onde todos podem gozar na desatenção do aviso. Lá dentro é fonte de AIDS, sífilis e gonorréia, mas isso não é tão preocupante quanto a perca do carinha que pode cair em outros braços. Mas se ele cair em outros braços, não importa, porque uma hora ou outra, ele vai estar sozinho e o mocinho pode recuperar o seu objeto de cobiça. Após a balada alguns casais pegam seus carros e saem caçando pela cidade afora alguma presa facilmente atacável. Um gosta de ver um estranho possuir o namorado, ou vice versa. A boate agora após os anos noventa encontrou uma grande concorrente: as casas de forró estão invadidas pelos homens águias. Foi numa dessas casas de forró em Itapebussu que meu namorado também se virou como pode, segundo o seu ficante Wanderson.

Eudes, ainda não havia se rendido a nada disso. A boate era o único lugar do mundo que ele não gostaria de ir. Mas o seu namorado ia escondido e as vezes orgulhosamente dizia que ia. Até que um dia um rapaz chamado Saulo se interpôs entre eles. E que impasse foi criado? Eudes resolveu aceitar a verdade de todo mundo: -“Ninguém é fiel, todo mundo se trai mesmo.” E desistiu de ser o último dos românticos, aliás, não desistiu, foi obrigado a desistir. Dentro dele houvera estardalhaço de verdades. Os mitos caem por terra. E Eudes viu seu sonho a mergulhar em um buraco escuro, onde mais difícil era ser realista com ele mesmo. Mas nenhuma mudança está livre do horror! A consciência é agredida em nome da semente do mal. Eudes começou a exercer a mesma função que o namorado, e isso na cabeça dele se bifurcava entre a vitória amarga e o sonho falido. Eudes não se corrompeu. Eudes foi corrompido. Nas boates Eudes observava os olhos de seu namorado, inquietos, a procurar, a arquitetar na inconsciência. No outro dia, Eudes saia sozinho para exercer sua vingança boba... E ninguém pode culpá-lo por isso. Ele vivenciava uma armadilha que tinha como função aprisionar todos os homens. Boate não é o paraíso, é purgatório. Só pessoas desprovidas de inteligência, impuras, estão lá aprendendo como se deve apodrecer, estão lá perdendo seus valores porque perdem mesmo. A ausência da inteligência joga o homossexual no reduto para que ele perca o encanto e seja degenerado. Isto não é falsa profecia, as histórias foram escritas assim... e assim é porque assim também será.
Eudes começou a sorrir e ao sorrir aprendeu a zombar dos homens. Eudes também se desencontrava. Ele soube através de amigos que seu namorado realmente ficara com Saulo. E ele jurou a si mesmo que haveria de despir Saulo, e conseguiu. Eudes ao despir Saulo concretizava sua estúpida vingança, e pensava: - “Ele teve você. Eu também tenho.” Que palavra para amenizar a ferida ele haveria de achar? Nenhuma. Eudes estava ferido, e não acreditava nem mais nele mesmo. Ele só tinha a certeza que não necessitava ser um sedutor para possuir alguém. Todo mundo se oferece para uma única vez. As pessoas se oferecem em bandejas categoricamente expostas. O perfume vencido do outro funciona quase como atrativo. Isto é o universo gay. Seria legal se isto fosse contestado dentro de uma tese real e não fantasiosa. O triângulo para Eudes se completara: o namorado, Saulo e Eudes. A vingança foi exercida na plenitude. Será que as pessoas querem mesmo dividir a boca de seus namorados? O corpo? O sexo? Em nome de que? Em nome da modernidade, em nome do progresso progressado e processado em estado de miséria. O topo gay é um lixo, um mijo, um misto de esperma e água sanitária. Ninguém é obrigado a perdoar isto, mas isto precisava ser dito e necessariamente ouvido.
Um amor não deve ser enganado nem mesmo em nome do amor. Para que procurar um outro, quando se tem o mérito e a qualidade? Estou a defender sim o relacionamento, estou a defender a qualquer homem apaixonado e honesto com ele mesmo. Estou ainda a afirmar categoricamente que a boate e o reduto são os períneos de todos os gays. Também ninguém é obrigado a concordar. Mas dentro de uma boate é possível saber quantos saem sem gozar? O desejo é potente. Gay é potente por excelência, tão potente que consegue destruir a si mesmo. Todos ficaram estrábicos em nome da potência. Mas isto é imperceptível porque cai a noite, e a luminosidade apresenta “noite de orgia.” Apresenta no pior estilo, mas é o melhor, o pisar firme, o olhar direcionado e nunca seguro, a caça e a presa. Tudo era para ser escrito sem perturbação, mas a perturbação chega porque a verdade deve apelar para a emoção. O assunto preferido da “ala” é horrendo, mas passa a ser também a sétima maravilha. É preciso salientar que isto não tem ligação nenhuma com o caráter, fala se aqui da conseqüência do desejo mal projetado. Serão isto ainda ruídos e ruínas na ausência do relacionamento? Há mentira até aqui? (Risos). A causa é própria e isto é isto em resposta ao que foi pensado por você. Porque no fundo há vazão para o imaginário. Estamos castrados não pela força e ira do visivelmente consumível, mas pela interinidade da consciência prostituída e corrompida ou corruptível. Sabe-se que lá é assim, mas a insistência para que se vá, para que se conheça e se divirta é interminável. Quem entre nós, humanos, admitirá o próprio vicio enquanto ele nos alucina?

POUCOS PUDERAM RESISTIR HEROICAMENTE. O DESEJO PODE

O desejo pode!

Seria mais prático, menos rugoso se todas as pessoas pudessem esquecer o medo, e pudessem principalmente estar atentas a realidade. Como seria menos agressivo a uma criança se ela soubesse que existem meninos que gostam de meninos e meninas que gostam de meninas, dentro do próprio lar. Quando ela se percebesse, e se criasse nesse universo de possibilidade, ela iria ter o direito de perguntar aos próprios pais: - pai, eu posso gostar de menino(a)? E os pais iriam, se preparados fossem, saber que nada poderão fazer para evitar. Mas ao ouvir isto, o pai quer encaminhar o filho ao psicólogo, aos corredores das Igrejas para que a criança se perturbe e se conforme. Cadê o direito de exercer? De ser? Em ser aquilo que ela é? Algum pai daria essa liberdade ao filho? Graças a Deus que sim. Nem todo pai e nem toda mãe são hipócritas e egoístas ao extremo para esconderem de si mesmos o fato.

Tive uma professora, que tinha três filhos. O mais novo deles adorava brincar de bonecas. Ele era uma criança super afetada, e uma noite na missa dominical, este menino, vou chama-lo de Adrian, estava no primeiro banco da Igreja com uma boneca nos braços. Adrian acalentava a boneca como se ela fosse uma criança. Ou como se Adrian fosse uma menina a fazer de conta que aquela boneca era sua própria filha. Uma senhora, que sempre estava na missa, viu aquilo, se aproximou do menino e disse: - “O que é isso, Adrian? Você é um menino, é para brincar com bola, me dê essa boneca”. Adrian a enfrentou, disse que não iria dar.

- Vou dizer agora mesmo para sua mãe – Insistia a senhora.

- Pode ir – desafiava Adrian.

Esta senhora passou a missa toda inquieta. Achava aquilo um absurdo. Terminada a missa, passou na casa de Adrian, queria falar com a mãe do menino. E ficou chocada ao saber que a boneca havia sido um presente de mãe para filho. A mãe de Adrian disse que não iria frustrar o filho, sabendo da possibilidade. E que faria o possível para que o filho fosse feliz. Qualquer coisa a mãe de Adrian aceitava, menos ser hipócrita com ela mesma. A senhora reclamante ficou chocada, achou que a mãe da criança estava louca. Adrian precisava de castigo. Adrian precisava apanhar para deixar de sem vergonhice. Pois, segundo, os valores daquela senhora, este menino estava sendo muito mal criado. Inconformada essa senhora fez investidas para as tias da criança, e nenhuma vez foi sucedida. Infelizmente nem todo filho é Adrian. Para ele o processo não seria doloroso. Os irmãos o compreendiam, o pai o aceitava. Adrian cresceu, e se é homossexual ninguém sabe. É um rapaz de aparência masculinizada, não fala sobre sexualidade, nem tem amigos gays, nem freqüenta redutos. Ele é aparentemente um rapaz bem resolvido com ele mesmo.

O que se sabe sobre sexo? Sobre desejo? Sobre sexualidade propriamente executada? O que são princípios e como eles caem sobre nós? É estranho, muito estranho a ausência do conhecimento de si mesmo, e por isso é que não podemos resolver o outro. Temos, se possível resolvermos apenas nós mesmos. Nós aprendemos e fomos muito mal acostumados a querer dá sentença para o outro, quando dentro de nós mesmos vive apenas o irreal. Outro dia, fiquei chocado, quando o namorado de um amigo meu, foi ter com um padre. Segundo esse rapaz, ele precisava se confessar, e disse que namorava homens. O padre o aconselhou a terminar o relacionamento. Isso parece e é de fato primitivo ou seja uma prepotência acentuada. É lamentável, é revoltante essa arrogância treinada. Ninguém tem o mérito. Possuímos sim, degraus maiores e menores em nossa inteligência. Como os representantes do bem são tão mal escolhidos! (Na ironia tem punhal e afta para provocar) Os representantes do mal são maus em sua essência deliberadamente. E por isso eficientes em suas funções. Não se pode ajustar o divino na enciclopédia do diabólico. E em nossa essência, sabemos o que realmente nos agrada e nos desagrada. E o que nos desagrada secretamente é o que estamos a todo o momento a praticar. Anulamos na incapacidade o nosso valor real. Nesse canavial de pecado e culpa o que simboliza liberdade, se há o estelionato da confiança? No patamar social, houve antes uma esmagadura, onde poucos puderam resistir heroicamente. É começável a bater o velho para saber que o novo em nada mudou. E isto traz aos ouvidos, Elis cantando: - “ Você é que é mal passado, e não ver que o novo sempre vem... Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”

Hoje eu não sei de quem me deu a idéia de alguma coisa nova. Sei que há tradição de suma importância para o historiador, para o pesquisador, e só.

DESEJO

Desejo

O que é mesmo o desejo? Chega de buscar respostas em dicionários, como também da impetrabilidade dos conceitos científico-filosoficos. Isto é falado porque dentro de nós há o mais importante psicólogo, o mais eventual dos filósofos e o mais preciso dos cientistas. E inegavelmente o mais forte dos mitos religiosos – a consciência. Como é que detectamos os desejos? Nós temos força suficiente para mergulharmos nele? O caminho é sadio? O desejo é para ser explorado. Como isto é feito é outra coisa. Tenho observado jovens com seus desejos vencidos em nome da incompetência. O desejo na hora da realização não pode separar-se da satisfação. Desejo não é culpa, é necessário este entendimento. Quem melhor conhece o seu corpo, se não você mesmo? Quem é que vai ditar regras para a sua maneira de ver e encarar o auto espelho? Será que em nome da razão houvera a destituição da vontade? Desejo é razão, e razão é vontade, e a vontade é a verdade de cada um. Então levando isto para a problemática da sexualidade do igual: quando dois homens se olham e se desejam, neles parece que já vem interligado a falta de ternura. Eles já partem para o sexo. Isto é um pouco ou um muito selvagem. Entende-se o sexo como selvagem. O.k. Só que aos humanos fora dada a faculdade do raciocínio. Tem se compreendido que o sexo na imediação dos segundos não traz culpa. Ironicamente a culpa parece estar na relação que se cria com o outro. Enfim, mil justificativas foram criadas para permanecer apenas no sexo: -“Não quero compromisso. Não apareceu ninguém capaz de me ganhar. Os que apareceram não foram perfeitos. Terminei meu relacionamento, agora quero me divertir, o meu parceiro era muito ciumento.”

O dia dos namorados... Esse dia tem uma comemoração toda especial. É um instante quase que de posse. Há também uma lembrança, vaga, e não aceita que é preferível o ficar dos ficantes, e estes anulam uma parte da história que passa e não tem capítulos memoráveis. Os capítulos memoráveis estarão escritos nos grandes, nos bons romances. Se você fizer parte daqueles que sabem construir, me manda um recado dizendo assim. “Sim, defendo o amor. Digo sim ao relacionamento”. E neste dia cuide mais, goste mais, ame mais”. Já não queremos mais cuidar, não temos mais disponibilidade para gostar. As justificativas para se evitar a culpa são tremendas, elas se emendam na numerosidade da mentira. A verdade que se tem constatado é que os homens são ariscos por natureza. As mulheres quando se olham, elas são ternas e se transfiguram na ternura. O homem está sempre na estaca zero sentimentalmente. E tratanto-se de dois homens, eles estão sempre a esperar o príncipe que insiste em não chegar. Houve um boicote e isso não se deu naturalmente. Enquanto isso em nome do desejo, ele é levado a visitar todos os redutos, saunas, boates, cinemas e dark room. Onde quer que haja um roteiro GLS, ali uma procissão segue cegamente com uma miopia duplamente qualificada. E todos os dias é batido o mesmo cartão em pontos estratégicos, embora diferentes. Isto não é inteligente: Ninguém quer ninguém. Para quê? “ Alguém traz dor de cabeça. Ter alguém se tornou um saco, é insuportável qualquer relacionamento.” Isto se tem ouvido com muita freqüência. Mas a dor de cabeça deveria ser apreciada, o saco insuportável enchido pelo outro também. Isso é mais inteligente do que ler a primeira das cartilhas de uma substância composta que é o desencontro, a intolerância que não cede ao apego.

(Risos) os rapazes de plantão em qualquer sauna não aprenderam que mais interessante do que despir dez ou vinte e tantos corpos que se exibem de toalhas, é jogar a toalha para o seu parceiro no banheiro de casa. Pobres moços! A crise é enfrentada, ou melhor, vivida. Ninguém enfrenta nada, em nome do desejo se em barca em aventuras na predominância da fenomenologia do fracasso humano da conquista. Enquanto isso parece ser necessário para todos conquistarem cinco ou mais homens em uma sauna sem se importar que essas conquistas durem apenas trinta minutos, menos de uma hora. Cada um tem seu momento de glória, e não é conseguido ou concebido enxergar um troféu arruinado: os corpos desnudos ou apenas desejo. Esse mesmo desejo tem vitimado uma grande parcela da sociedade. Será que quando Vanusa cantou mudanças e falou da incoerência, essa citação não poderia nos ser clara, assim parece: -“Com todas as incoerências que fazem de nós forte, sexo fraco”.

Ricardinho tinha sete anos de idade, e era uma fotografia visivelmente afeminada. Ele, negro, passava fome, bem raquítico, tinha um sorriso cheio de tristeza e terror. Um dia, o senhor Adalberto e sua família foram morar próximo ao casebre onde Ricardinho vivia com sua família. Ricardinho ficou feliz, encheu os olhos ao ver diante de si uma televisão colorida pela primeira vez. Ricardinho passou na calçada do senhor Adalberto, se aproximou, deu boa noite e pediu para que deixassem a janela aberta para ele assistir o ultimo capitulo da novela “a gata comeu” colorido. Ricardinho queria saber que cor era a roupa da Jô Penteado. Muitas vezes Ricardinho ia assistir a novela com fome, mas se dava a esse prazer: ver a Jô de Cristiane Torloni enganava a sua fome, Jô o alimentava, Jô o esperançava. O senhor Adalberto ao ver o garotinho de pele escura e afetado, o olhou e em seguida observou seu próprio filho, Junior.

- Tu queres o que?
- Ver o ultimo capitulo da a gata correu (ele dizia correu, ao invés de comeu). Quero ver que cor é a roupa da Jô.
- Sai da minha janela negrinho baitola. Viadinho passa fome.
Ricardinho temeroso engoliu o choro, mas não pôde proibir as lágrimas. Se sentira ofendido, principalmente ao ouvir os nomes baitola e viadinho. Porque isso dentro dele eram seus monstros. Adalberto fez questão em aumentar o volume da TV para causar inveja ao moleque que para ele era sem valor e sem prestigio humano. Ricardinho antes de dobrar a esquina ouviu o grito da Jô: - “Lembrei, lembrei, lembrei”. Nessa noite Ricardinho não quis jantar, esqueceu a fome. Ele havia passado uma semana se enchendo de coragem para pedir isto ao novo vizinho. Ao Junior, foi passada uma ordem. No dia em que ele dirigisse a palavra aquele negrinho, ele iria levar uma surra.

Ricardinho esperou quatro anos para saber que a roupa da Jô era vermelha. Em 1989, ele pode rever a gata comeu em um especial de tarde. E naquele ultimo capitulo, dentro dele, parecia chegar a bofetada verbal recebida por causa de sua condição. Mas Ricardinho, um dia conheceu uma senhora que quis levá-lo para São Paulo, ele foi. Lá ganhou a vida, ajudou seus pais e irmãos. Foi doméstico, diarista, prostituto e advogado. Ricardinho se formou em advocacia. Será que dentro dele, ele quer defender seu próprio direito? Que profissão escolhemos?
Já adulto, Ricardinho comprou vários DVDS. Ele tem a novela inteira. E passados anos, Ricardinho retorna a sua cidade natal. Quando o ônibus parou... ele causou furor. Descia do ônibus uma negra de peito, bunda, toda no vermelho e no tamanco. Ricardinho disse que voltou de vermelho em homenagem a cena que ele fora proibido de ver. De vermelho também porque assim Tiêta chegou em Santana do Agreste. Mas estava faltando mais alguma coisa: Ricardinho chegou com seus olhos azuis, em homenagem a Ana Jacinta de São José (a Dona Beija). Ele ao voltar trazia saudade de uma infância que embora amarga lhe pertencia. Ele sabia que não deu para ser melhor antes. Ricardinho sabia que não podia viver sem essa lembrança, esqueçer a infância seria esquecer dele mesmo. Agora ali diante dos fofoqueiros de plantão, estava aquela negra com o atrevimento da negra Xica da Silva. Em cada personagem da literatura que ele gostava, ele buscava inspiração. Ele foi bem recebido, esta era a primeira vez que voltava. Suas bolsas com presentes logo foram abertas. Ricardinho tinha perdido o seu sorriso. Agora sorrir era olhar e desafiar qualquer um e outro. Foi em São Paulo nos cinemas da república que ele aprendeu a desafiar, a olhar, a conquistar e calar. Na rua Aurora, Ricardinho aprendeu a não temer. Para cada irmão, ele trouxe aparelho de som, DVD de última geração. TV a cores já havia mandado. Seus sobrinhos pareciam não compreender a formatação global do tio. Aqui mais uma vez faz o jogo da hipocrisia. Ninguém diz nada, todos pensam em segredo. E novas crianças se vêem ilhadas em perguntas rápidas e respostas vagarosas.
Quantos Ricardinhos somos ao todos? E é importante salientar que vez e outra é preciso ensinar pai nosso a vigário para que o exercer do oficio não se perca na rotina. Será que começo isto sendo taxativo? Ninguém tem nenhuma verdade dentro de si para o outro. Dentro de cada um há apenas a própria verdade dele, que não necessariamente vem a ser verdade de quem escuta. Não dá mais para se aprender certas coisas com o quebrar de cara. Nem sempre este quebrar está prontificado ao conserto.

Ninguém Ousará Apontar o Pecado, Apenas o Pecador

Primeira parte


O delírio anestesiado toma conta de bocas, línguas e corpos, e nada de desejo. A oferta mata o desejo e em conseqüência disso o encanto. Aqui farei dois papeis: o papel de advogado do diabo e também de advogado de Deus, ou melhor, de semi deuses pervertidos ou não. Vou falar de sexo com toda a abertura que ele traz sem máscara, sem remoção dos bacilos e vírus que irmanam nele e por ele. Como funcionam a coisa e a causa no primeiro mundo, onde as pessoas parecem mais civilizadas? E no terceiro mundo onde há uma desvalorização adquirida? Onde são o ocidente e o oriente do desorientar-se na maculação do gozo? Sim, nisto há a fenomenologia do homem. Será que o homem nasceu assim? Ou será que tornou-se ou tornaram-no assim? Ninguém ousará apontar o pecado, apenas o pecador. Percebo que a ciência e a religião não podem mais andar separadas ao falarem de sexualidade. Na igreja ainda há o que ser desvendado. As seitas não podem mais orientar-se sem o avançar da ciência e da sociologia da homossexualidade. Dentro de cada lar é preciso emergência como também o estancar do preconceito. Cem palavras não são mais capazes de alertar, mas uma apenas deixa o natural perder seu curso – “não”. E esta palavra assim como toda e qualquer escolha é dúbia. Mas há clareza iminente para o sábio de sensibilidade. A justificativa de escrever é retrocesso, é processo iniciado em uma nova iniciativa que ainda não sei digerir, é inchaço e cansaço do tudo mal e tudo certo.
Ano passado apresentei um monologo que foi fruto e resultado de pesquisas e auto critica ao mundo GLS. Esse monólogo intitulado “Amores Marginais” foi aplaudido na idealização do expositor, do achar-se perante o ser. E um seleto grupo na platéia concorda, confirma, acredita que algo precisa mudar. Amores Marginais tinha fel nas palavras e aftas em cada amor perdido. E o que se é em força e fome daquilo que se acredita? Neste punhado de informações deve haver muita espiritualidade, luz, filosofia, logosofia, ciência e humanidade. Uma delas ou todas poderão ser perdidas em nome da indiferença. A profecia deve cair por terra em cada ser capaz de chorar no vazio da busca inútil ou ainda da batalha perdida. Queres amor? Ou queres sexo? Busque tempo, mais tempo ainda para se pensar não no imediatismo, mas naquilo que ele pode representar negativamente.

Dedico este livro ao meu amor!




As crianças parecem brincar. E elas brincam inocentemente pelas calçadas, pelas ruas, pelos pátios da escola. E entre elas, um menino ou uma menina sabe que pulsa em suas veias o terror! Sabe que pulsa, mas tudo isso está longe da consciência. Elas sabem que elas não podem ser elas mesmas, elas sabem que quando a hostilidade de um adulto ou mesmo de um coleguinha de escola, é lançada sobre si, só resta a bandeira branca: baixar os olhos, tirar a vista. É assim em todo lugar do mundo. Engraçado que com o enxoval do bebê, os pais já ensaiam o preconceito. Quarto rosa para a menina, com enfeites delicados e, segundo eles, próprio para a menina. Para o menino, amarelo ou azul bebê. E se o menino pudesse optar pelo rosa e a menina pelo azul? Ainda é cedo para isto. Lá maiorzinho, o menino quer tocar, pegar, sentir uma boneca. E vem a família inteira com uma repreensão uníssona: - “Não pode. Isto é para menina”. Eles parecem estar certos. E quem os disse isto? A tradição. A menina quer descobrir a bola: - “Não pode”. Há uma reprise do dizer de novo. E quem os disse isso? A velha tradição que nunca foi ouvida na codificação do ensaio, mas que por excelência se traduziu.
Concordo, e os pais estão certos quando querem repetir a tradição. Assim, eles foram criados, mas eles precisam redescobrir os próprios valores. Não é porque foi assim que assim será eternamente. Estamos em tempo de escolha múltipla ou mútua. Vivemos um mundo cada vez mais castigador, sangrento. Um mundo de entorpecentes, sexo e vírus. E tudo isso é agregado à falta de escolha. Hoje só temos democracia, e a utilizamos da pior forma possível. A forma de utilização é zero. Está todo mundo esquecendo o mediador da vida que é o tempo. A escolha. A tentativa. O outro. O amor. O ser. Temos tarefas inumeráveis a favor de nós mesmos, e elas parecem cada vez mais minimizadas em nome do imperceptível. Estamos diante da vida, cegos, vaidosamente míopes. Enquanto os motivos de nós mesmos são expulsos de nossos ciclos de uma maneira cretina e feroz. Pensamos que estamos renunciando o fator negativo da sociedade com nossa liberdade aberta, mas na verdade estamos renunciando o nosso próprio umbigo. Quando se trata do homossexual tudo parece ser mais difícil. E aqui mais uma vez não haverá espaço para o falso glamour. Estou falando de vida, no anseio maior que é retardar a morte. Mas parece que todo mundo resolveu morrer, mas não aceita o veneno fabricado por ele mesmo. E isso passa a ser contraditório. Quem representa o que nesse teatrinho mal representado que é o solo gay? A bala não dispara mais, hoje, ela foi substituída pela fonte de sífilis, AIDS e gonorréia. Quem ousará romper com a certeza do berro na hora do ferro? Por uma postura social e humana já.

Só a felicidade individual pode reciclar a sociedade. A solidificação do hoje é espelho da felicidade, do pouco peso sobre as costas. Os pais precisam entender que não é a cor do quarto, o brinquedo certo que irá definir a sexualidade desse pequeno que vem ao mundo, muito menos o triturar do desejo quando chegar a adolescência, mas sobre isto falaremos mais tarde. As próprias instituições educacionais assim como os pais precisam reinventar um novo cordão umbilical e não amar o próprio umbigo. Ensinar valores não é ensinar a reza, a crença. E sim a importância de cada coisa. Há coisas que não foram e nem serão aprendidas numa sala de aula. Não há universidade que desqualifique isto. Há grandes falhas a serem corrigidas e isto parece fundamental. Nas escolas falta sim, a disciplina sexual, o saber do mestre sobre o isto onde o preconceito possa vir a ceder para a realidade e o valor sexual a ser integrador junto do valor humano. Vale ainda destacar as tarefas de casa onde muitas vezes os pais junto com os filhos precisam fazer algum tipo de pesquisa. Pega-se como exemplo uma colagem no caderno da criança. E os pais procurando figuras junto com os filhos dizem: - “Não, essa é feia”. Mas uma vez o preconceito se instala e é implantado na criança. É preciso estudar valores, rever conceitos para que o bem desnecessário seja interditado. Um preconceito é irmanado em todo preconceito. Quando acima é citado as instituições educacionais é porque é visto nas secretarias, nos intervalos, educadores a se perfumarem de seus mesquinhos ponto de vista e de interesse. Um educador pode ensinar português, matemática, seja o que for, mas o seu papel seria educar, é fazer com que o maior numero de alunos pudessem se transformar em mensageiros de uma nova civilização.
Estamos aqui para falar da criança e defendê-la de qualquer violência psicológica e sexual também. Para que ela não se torne o adulto que hoje se reinventa no manifesto da promiscuidade. O que são dessas criaturas dentro de um lar hostil, onde a força e a voz alta imperam em nome do medo? A criança vai se reprimir. E toda repressão tem um momento em que vem a tona e explode em nome da revolta. Medo causa revolta, e o purgatório pode ser paraíso. Lá fora não há culpa explicita. São necessários sob a visão da problemática poetizando a metáfora: o nascer, o pinto, a casca do ovo, a fragilidade, e principalmente a galinha a não ver o sexo do pintinho. Ela sabe e compreende que precisa proteger. Sexualidade não se cria, apenas se educa ou se reeduca, ou seja, se pratica. E não tem como mudar o curso natural das coisas. O menino(a) não foge da sua condição. E os pais esbravejam em nome da vaidade e da vergonha que é transitável na satisfação a ser dada socialmente. O filho e a filha podem ser homossexuais? Não podem ser. São. Quando há dúvida e preocupação é porque eles, os pais, sabem. Não há dúvida impunemente. Os pais, pobres coitados, preferem passar a régua na cabeça do vizinho falador do que água o fruto deles que vai apodrecer no pomar. E isto acontece sempre quando o pomar é estragado.
É razoavelmente verdadeiro que os pais estragam os filhos por amor demais ou por uma hostilidade demasiada. Mas esta criança vai pecar ao ser homossexual? Ela peca para a sociedade ou para Deus? Para Deus – respondem os hipócritas(!) A resposta se torna realidade e sentença, a voz que responde é de todos e é uníssona. Deus disse isso? Disse? Deus é carrasco? Repressor? É violento? Ninguém sabe. Penso em Deus como um ser absoluto. Se ele não for absoluto, alguma coisa está errada. E quem nos ensinou o amor? O respeito? Quem pediu para amarmos uns aos outros? Será que em Deus existem duas máscaras? Uma que a todos atende e uma outra que a todos pune? Vamos ver Deus como um ser absoluto, supremo. E o superior não dá ouvidos a calúnias alheias. O superior não se aborrece. Esta é a afirmação mais bonita, quem sabe, sobre Deus. Deus não é gentinha e só gente pobre de espírito e de matéria é que tem preconceito, e nem poderia ter porque por si essa gente já sofre todo tipo de preconceito. As crianças tem urgência por respeito, por compreensão. O velho testamento precisamente que é mais repressor precisa ser esquecido na hora de educar. É hora de se buscar um mundo melhor, de paz, de dignidade, de caridade humana e social. Para que Deus possa sorrir ao olhar suas criaturas. Se Deus sofre porque o filho teve a sua conduta sexual fora dos padrões estabelecidos, sofrerá também diante a prepotência daqueles que se julgam “senhores do mérito e da verdade”. Nenhuma verdade é absoluta e toda verdade é. E isto é a pequena receita de casa diante do que virá depois, o social. Somos religiosamente apegados aos mitos. Nenhuma criatura humana é desprovida de suas crenças. Até mesmo os animais considerados irracionais, acreditam em suas verdades, acreditam no timbre vocal de seus donos. A faculdade do raciocínio animal é abstrata. A sociedade está toda doente, infectada por vírus passados de geração a geração isto é: hipocrisia. É dentro de casa que se deve começar a cura dos males sociais, sexuais e mentais.

Onde houver felicidade sem o mal estar do outro, há a maior aprovação divina.

Há um fator psicológico que a humanidade não costuma estar atenta: o vazio da crise existencial. Essa crise, ela começa a se impor no homem, na mulher, na criança, não só quando o sujeito exerce um papel passivo no meio de sua existência. Ela aparece quando o sujeito vem a praticar um papel ativo também. Ao atiçar, ao alvoroçar o lado machista, preconceituoso e desumano o vazio da crise começa a se formar. Por que falar isto aqui? Fala-se isto aqui para que os consultórios de psiquiatria possam esvaziar um pouco futuramente. Quando as pessoas começam a cuidar uma das outras, sistematicamente elas começam a ser cuidas. Tenho observado que as pessoas estão todas necessitadas, carentes porque ninguém se cuida mais. E aqui é o alicerce de relevante importância para o direcionamento do ser humano. Situações provocadas e acarretadas tragicamente nesse período perseguirá o adulto também de uma forma sistemática. A probabilidade da incapacidade se instala estupidamente, boicotando o ritual do brilho, a força da capacidade.

FRANCAMENTE


POR Velazquez Alacoque

“O essencial é invisível aos olhos”. – Pequeno Príncipe.

Nenhuma noite é tão minha quanto esta. A noite que eu me reencontro diante o espelho. E sou o que sou ou o que pude ser. Mas na certeza que a valentia poderia ter sido maior. E será. Algo que eu ainda não sei o que é me pede para brindar sozinho e comigo mesmo a redundância do afirmado. Sim, digo-me isto e ofereço aos meus guardiões a oitava palavra que é a maior. Ofereço assim como em um ritual festivo o meu rosto para a luz que há de ser sempre própria na ousadia do ir bem fundo.

A minha resposta a tua promiscuidade virá com o passar dos anos

Era noite, meio da semana, em uma mesa de bar, fui motivado a escrever sobre essa temática que parece não ter mais nada a ser dito, mas tem. Meu amor disse-me que eu não deveria desistir, que eu não poderia me neutralizar diante essa missão. E eu sei que não tenho obrigação de nada, ou pelo menos não queria mais ter. Então, eu disse que isto não me interessava mais. E em réplica ouvi que desistir era fracassar. Era aniquilar a minha função, que eu precisaria escrever algo que dissesse a que veio. Ficou martelando a idéia do fracasso. Eu estava consciente disso, eu fracassei. E nisso o meu amor tinha razão. Eu estava de saco cheio de tanta coisa, de mim, também. E ao dizer que não tinha mais interesse em escrever, eu parecia mais cansado do que mesmo imparcial. Bom, eis que peguei um ônibus e não consegui sentir raiva. Consegui pensar e me remeti a uma situação ocorrida com Aguinaldo Silva, o autor de novelas. Ele disse que um amigo certa vez o encorajou a escrever de novo, quando ele se dava por vencido. Isto me pareceu interessante, mas entrar novamente nesse mercado, buscar informações necessárias e muitas vezes desnecessárias, não me motivava nem um pouco. Mas eu tinha histórico, boletins de ocorrências, eu tinha PHD para retomar a isto, sem me expor. E por onde começar? Devo folhear e rever meus arquivos mortos e vivos, ativos e inativos. Será que a ciência da sexualidade deve acentuar-se em um livro, quando o cartaz propaga o próximo ponto de encontro? Aqui há um impasse. Em cada esquina o panfleto já traz explicito o fetiche, a indolência do sexo. E me vejo rodeado de anotações, e me perco em labirintos sem saber por onde começar. Então começo pela irrevogabilidade da vontade diante o principio e o verdadeiramente imoral. O que eu venho a dizer terá agora alguma contribuição a dar? Talvez não. Como já disse: a foto dos go go boys, o chamariz e o néon da mais nova boate retratam o apogeu da “liberdade”. Sim, liberdade acentuada em negrito na inverossimilhança da palavra. A estréia do filme de arte é silenciada, a temporada de uma peça de teatro onde a abordagem, social e cultural, se irmana na desenvoltura do intelecto, é vitima do pacto do silêncio, o seminário sobre filosofia e cultura não desperta interesse, toda a intrínseca espiritualidade de Clarice Lispector já não é alcançada pela juventude e geração atual, mas a inauguração da nova boate é o evento da década, mas esta boate ficará em evidência até uma outra ser aberta. Quando inaugurar a nova, ela perderá a importância. Falo de um povo sem histórico, sem tradição cultural ou mesmo tradição amorosa. Mas vou escrever e começo a me apaixonar por esse ideal. Vou romper aqui comigo mesmo, a última receita porque a minha pode não ser a correta. (E me vejo também emaranhado entre macegas, nessa luta desigual que é a simplicidade da qualidade lutar contra o fascínio da quantidade) E digo isso porque sei que “todas as pessoas são livres, livres para serem elas mesmas.” E o corpo é a única propriedade que elas possuem. E cada um sabe como melhor cuidar de si. Cada um sabe melhor cuidar do que é seu. Apesar de eu acreditar que não.

Confesso o cansaço, a luta inútil, penso eu, mas o meu amor diz que a luta, a minha, não é inútil (tenho duvidas!). É hora, ou melhor, tempo de se agregar valores sociais, psicológicos e humanos. Mas do que nunca os empresários do sex fashion, os movimentos e o próprio individuo precisam tragar o cigarro de pano. Ontem mesmo eu disse que as bandeiras não seriam mais hasteadas, as bandeiras da decência, do politicamente, do pudicamente correto. E isto foi dito porque eu sabia que não havia mais ânimo para lutar pela conscientização, eu não acredito mais na boa intenção gay. Toda essa campanha embora individual do censo e da compatibilidade está falida por falta de adeptos. E aqui não estou a fazer isto. Não estou a defender a dignidade, não estou a projetar o cuidado, é melhor que seja assim, todo mundo por si. Estou ainda tentando na singularidade do humano não levantar a bandeira, e sim, estender a mão a um suicida. Suicida aqui representa o nivelamento zero da promiscuidade que é nada mais que um abismo. O nível zero da promiscuidade já é um perigo. O sex fashion é uma sala cheia de balões coloridos pelo chão, e quando se pisa para a eletronicação do corpo, cai-se em um abismo. Este abismo aqui é representado por todos os meus arquivos que são labirintos. O que as pessoas querem? O que cada um vem a querer nessa babilônia sexual?

Este livro deve chamar-se: Francamente.

homossexualidade em cheque

Toda a palavra já deferida aos homossexuais vai de encontro a prática desenfreada no próprio gueto. A minha última pesquisa sobre nosso comportamento apresenta um desencanto que vai além da realidade. Parece que o homossexual tem esquecido que ao longo da história, ele foi visto como vilão de muitas familias e relevantes episódios, embora não seja. Mas quando se trata de nossa prática em lugares detidos como nossos... Temos apresentado um descuido impressionante com aquilo que vem a ser a nossa única propriedade: nosso corpo.
Parece que foi ontem que eu ouvi que os amores eram tão mal cuidados. E hoje, me parece que a nossa única preocupação é o gozo, e não importa de onde ele possa vir, só o orgasmo em desespero é chegado e aceito como a coisa mais natural do mundo.
Com isso temos esquecido de muitas coisas, principalmente que um dia fomos motivo do riso de chacota, fomos um dia perseguidos por aqueles que vorazmente insistiam em nos classificar como inferiores.
Com o decorrer de tantos anos, quem vai ainda ter razão nessa babilônia sexual? Lembro que alguns anos atrás, muitos homossexuais se sentiram ofendidos com a declaração de um arcebispo que comparava o homossexual a um ser dotado de um desequilibrio qualquer. E Nós que quisemos a qualquer preço desmitificar o preconceito, acabar com as declarações difamatórias e pejorativas, temos hoje nos deparados com que? Será que as boates e os dark room não alimentam o que sobre nós já foram vomitados?
Quem de bom coração e inocência seria capaz de dizer a si mesmo: EU FUI SENTENCIADO A PAGAR O ALTO PREÇO DE AMORES MARGINAIS. Este blog funcionará como objeto de discussão sobre nossas verdades e mentiras, sobre nossas desculpas e medos, nossas entregas e devaneios em nome do amor e do sexo, ou mesmo da culpa rebatida tantas vezes. Aqui haverá sempre um ponto de encontro entre nós e os outros, entre a sombra e o espelho. A sexualidade está em cheque. A corrida pelo condicionamento tem sido apenas resposta e questões acirradas no esgotamento humano.