Derrotados no Ringue da Paixão

,estava apaixonado pelo Téo. Finalmente esta verdade aflorou dentro de mim. Será que quando o povo fala é porque é ou está para ser? Fiquei em frente o espelho, fechei os olhos, depois abri e disse com os olhos bem abertos, em um efeito quase hipnótico:

Caio, você é.

Mas era esquisito intransitar o verbo ser. Eu era o quê? Gente, alma sensível. O que as pessoas ditavam? Não sei. Por que as pessoas gostavam de rotular as outras? Só o que faltava era alguém colocar um rótulo em mim, assim como se eu fosse uma garrafa de bebida, a marca de um carro. Fui levado para a cama, não em nome do amor, mas em nome do desejo. Sentei em uma rede que estava armada na sala vazia; o homem se aproximou, sentou na rede também, porém antes perguntou se poderia sentar, passou a mão em minhas pernas, barriga... e me beijou. O bigode me enlouqueceu! Ele era um homem atraente, muito atraente. O meu pênis já tinha saltado da cueca, praticamente perdi a voz, estava trêmulo. Foi uma emoção muito forte, estranha, o primeiro toque na fase terminal da adolescência, primeiro beijo. Só é ruim lembrar depois porque não se consegue mais sentir a mesma sensação. E até conseguimos, no dia que voltar esse desejo de juventude com uma intensidade ímpar. Com o tempo, o corpo parece perder a sensibilidade, mas não é isso; nós é que esquecemos de fazer todas as vezes como se fosse a primeira, a única talvez! Aquele cheiro forte de homem me hipnotizava, mas não me dominava. Se o cheiro dele era enigmático; a minha resistência e o tremor são indiscritíveis. Eu necessitava conhecer toda a língua, todos os adjetivos para não perder o fio condutor daquela hora, onde foder poderia dizer muito, mas não calava a minha estranha certeza de alguma coisa além do mistério que me fazia ceder e recuar. Agora é preciso transportar a linguagem do instinto e obedecer suas expressões. Ele estava de pau duro, eu também. O meu cacete agonizava e pedia clemência na impetuosidade daquele fogo a nos consumir. Impossível esquecer adjetivos pornográficos: o meu pau supapeava de tesão e o meu cú piscava como uma árvore de natal. Em mim, aconteceu um desejo animal, eu sentia um desejo vagabundo e prostituto. Eu não queria, naquela noite, o homem que fizesse sexo com respeito. O meu instinto estava sacana. Estúpido. Assassino e devorador. Eu desejei ver o sexo dos cavalos a comer as éguas nos campos, eu lembrei dos bodes fodendo as cabras, o galo correndo atrás das galinhas, pensei em Tiêta do Agreste perdendo o cabaço, eu vi mil pombas rodopeando em um imenso salão. Eu amava alguém e quando aparece outro para o sexo não tem o mesmo apelo. Não quero, pronto! Veio em mim, a imagem do Téo. Todos os momentos que passamos juntos em um demorado flash back, um filme que tela alguma já viu. Quase choro por não ter tomado a iniciativa. Aquela frase que era totalmente normal um homem ter um amante, mesmo sendo casado, veio como uma bomba que explode e fica em verberação. Ele quis me dizer alguma coisa e eu não me permiti ouvir. Já, naquele apartamento havia dois homens, e eu esperei por isso. um dia cheguei a pensar que era pecado. Eu tive medo do fogo do inferno. Foi isso o que me ensinaram, disseram que todas as prostitutas, os bêbados, os avarentos, os ladrões e os homossexuais tinham por herança o inferno. Agora, não tenho mais medo do fogo do inferno. Esse fogo não deve queimar mais que uma noite de solidão.

Ás vezes, fico pensando nas coisas do mundo, e questiono o homossexualismo: não foi aceito pelo sistema. Faz parte porque agora é maioria. A sociedade teve que conviver, porque não pôde mais ignorar. E só resta aceitar clandestinamente. É a mesma coisa com o negro, com a prostituta, com o deficiente. Enfim, se a humanidade tem uma cruz; os homossexuais e seus adjacentes têm cinco. Por ironia de uma conta bancária não existe puta nos jardins, a puta está na favela.

O próprio homossexual não é porque quer, foi a condição humana que o estruturou assim. “Os prazeres são sempre efêmeros, as alegrias escondem apenas uma realidade que não se desvendou ainda.” – Sábato Magaldi. Mas é preciso ir adiante, ás vezes feito bicho com a alma a sangrar. Cada um à sua dor, cada dor o sonho rompido, cada romper a sangria desatada – a ruptura da couraça. Todos nós, a maioria, somos deuses que se auto fragelam no calvário do desamor, alguns são fênix, outros apenas águias cansadas, perdedoras no vôo do amor, sem destino. Somos romeiros, penitentes de noites eternas de solidão. Paga-se um preço muito alto, também é inegável. Vejo o mundo gay como um labirinto a presidiar carnes inflamadas, porque nós não tivemos estrutura para levar isso como uma coisa natural. Éramos felizes, antes que nos socassem o pecado cérebro adentro. A maioria trafega por ruas sombrias, por bares sorrateiros mendigando o que nem mesmo eles sabem o quê. Tudo na vida é efêmero, mas a vida de um gay é mais. Quase todos perdidos, naufragando noites vazias, insaciados, derrotados no ringue da paixão e machucados com a própria raça.

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