A Causa e o Costume Gay?
Quando o Encarei Frente a Frente
Ninguém transa por dinheiro. Pensar o contrário é contribuir com o machismo. Um homem deita com outro porque quer, porque deseja. E algumas vezes se esconde por trás do dinheiro. Como se isso de uma certa forma escondesse a homossexualidade. A mulher até pode fingir o tesão; o homem, não. E só temos tesão por pele, um toque, por alguma coisa viva. Transar por dinheiro é a desculpa mais ralé que pode existir. Não há dinheiro que faça um homem subir o pau, se ele não tiver atração. Antes do metal, vem o instinto. Já passa da hora de desmitificar o homem objeto, como também dos homossexuais tomarem vergonha na cara e não pagarem para ter alguém. Agora, um cara encontra alguém com vontade de gozar e com a carteira na mão, é claro que ele vai se fazer de difícil, vai botar banca para se valorizar e tirar vantagens em cima disso.
Quando o encarei frente a frente
Voltei a Vila das Flores. As luzes da cidade tinham o seu efeito dramático, assim como os refletores postos sobre a ribalta. O cenário uma boate. Luz neon. Ele finalmente surge diante de mim. Eu havia passado anos, mais de uma década esperando esse momento. Eu não tinha mais seis anos de idade, e não estava entrando na escola pela primeira vez. Passaram-se quatorze , quase quinze anos.
Veio a sensação que a cidade grande havia sido uma ilusão. Quantas pessoas se matam torturadas na dor dos lençóis? E assim como Tiêta do Agreste; eu me perguntei: Será que valeu a pena ter ido embora? Será que valeu a pena ter voltado? Ninguém escolhe o caminho mais difícil.
fim
"A AIDS Não Atinge Seres Humanos"
TERCEIRO ATO
Onde andará o meu amor?
Eu guardei meus lábios para o homem que eu amava. A carência não justifica a doença. Eu esperei o Téo, o príncipe de minhas fantasias, eu pensei que fôssemos imperar o mesmo castelo. E veio um homem comum, desconhecido, estranho e simples como um bêbado que vem do bar. Crueldade não é reescrever, agora pode ser quase indiferente, mas sentir, abrir a porta do quarto de motel, e não olhar para trás, nem desejar outra vez o mesmo corpo. Mas em outra versão, eu me sentí o rei da fortuna, gozado, saciado e capaz de renascer para o mesmo gôzo... e nessas vezes tive a certeza que antes do corpo vem a alma. Houve momentos que o abraço e a cama foram gratificantes porque todos os deuses pareciam unidos e calmos nessa batalha de corpos entrelaçados.
Selva de pedra
Eu me tornei um homem impotente diante das pessoas. Aquele encanto perdera a magia. E para lutar contra isso, comecei a dormir com a cidade toda, sem me entregar a ela, ganhei o mundo, as praças como escola gay. Mas para onde eu deveria atirar, se não nesse lugares que embora decadentes, algumas noites a poesia não parecia tão amarga? Onde estavam os homossexuais decentes dessa cidade? Eu sei que em algum lugar tem.... As praças, os sinais, as esquinas e os bêcos são a cocaína dos homossexuais. Será que precisamos ser assim, clandestinos? Latin lovers sem origem? É isso que a gente tem que avaliar, rever, inverter. A carência me levou a conhece esse cabarets sem classe, sem glamour. Lugares onde o fino trato da decência disse adeus, e de costas. Mas a elite faz a mesma coisa, não é só a pobreza. Eu conhecí o submundo com os próprios pés, sentí a inhaca do desagrado para me odiar e me detestar.
A melhor coisa depois de uma cama é a sensação de bem estar, quando a gente percebe que não foi só uma cama. Muitas coisas boas foram breves e com hora marcada, assim como quem vai ao teatro e se delicia com uma peça e sabe que uma hora ou outra acaba. Que fracasso maior para um homem que não ter a pessoa que ama?
“Na hora da raiva, eu lhe disse tudo, na hora da raiva eu rasguei o verbo. E falei de tudo aquilo que eu sentia, e o que eu não queria, eu falei também... não me reconhecia, estava quase louca... na hora da raiva, não pensei em nada, perdi a cabeça, e descontrolada... te disse umas tantas só pra te agredir.” - Roberto e Erasmo Carlos.
Muitos anos depois, eu voltei para casa... e tive uma briga terrível com o meu irmão. Para ser sincero, é tão doloroso para mim, dizer meu irmão. Nós somos duas pessoas completamente diferentes, nós “nos odiamos com muito amor.” Nós não gostamos da presença um do outro. Somos detestáveis. Ele me chamou de gay, um dia na hora do jantar, eu gritei com ele e joguei o prato no chão. Na mesma semana, ele insistiu nisso; e eu enlouqueci. Nessa hora, ele baixou o tom de voz e esqueceu a ignorância dele. Eu estava descontrolado e mandei ver. Essa música que a Wanderléia canta no início lembra esse fato. Chamei-os de hipócritas, ordinários; a minha mãe estava presente. Eles me pediam calma, mas eu estava disposto a matar, e disse que eles sempre souberam que eu era gay, que eu sim, fui o último a saber, que eu não precisava deles, que eu tive todos os homens que eu quis ter, que eu havia começado a transar com cinco anos de idade... e não iria parar nunca! Que eu não trocava o meu pior amante por nenhum deles. A frase mais cruel deve ter sido esta: - se juntar todos os homens, de todas as mulheres da minha raça, com certeza as qualidades deles não serão superiores a de um dos meus machos. E podem espalhar isso... eu sou gay! Baitola. Viado mesmo! Não é assim que vocês me chamam? Idiotas, canalhas!
Qual será o pecado de todo homossexual?
Um delegado, uma certa vez disse que a morte de um homossexual geralmente dava em nada. É a mesma coisa que morrer um cachorro. Nunca um jornal noticiou: morre heterossexual. agora basta um homossexual ser assassinado que as manchetes sensacionalistas ganham vida: homossexual é assassinado. Homossexual é espancado. Gay é preso, quando saia do motel. Travesti tem o corpo esfaqueado. Gay é preso vendendo cocaína.
A história se repete. Depois veio a AIDS, antes o meio não era tão violento. As pessoas ainda transavam pelo prazer. A violência que se sofria não vinha dos parceiros, mas de uma camada mais distanciada. Existem grupos de extermínio. Assim como a Igreja Católica cegamente castigou os inocentes, acusandos-os de hereges; a AIDS sempre esteve associada a grupos socialmente marginalizados. Declarou uma Americana, em uma convenção do Partido Republicano dos EUA que: - “Felizmente a AIDS atinge apenas os homossexuais, os drogados, os negros... não atinge seres humano.” Nós não temos a obrigação de sermos bons, mas o dever de não praticarmos o mal. Não podemos ser maus com os outros nem conosco. Sobre essa questão AIDS, tenho observado que os guetos sentem-se vitoriosos sempre que sabem que aumenta o índice de contaminação em outros setores as sociedade. É como se isso de alguma forma fosse uma vingança pessoal e uma luta contra o mito da peste gay. Sabemos irmanamente porque isso fora jogado para nós, e aviltamos essa verdade.
Quantos amigos, eu perdi por causa dessa doença maldita? Por causa desse freio moral sem moral algum... Quantas pessoas ainda jovens contaminadas, meu Deus! Vamos ser humanos e lamentar por todos. Assim é menos crucial essa batalha. Infelizmente não serão cessados os corações gelados. As igrejas que tanto condenam os homossexuais são compostas por quem? A maioria sempre ganha, isto é verdade. Embora que na pratica gay essa maioria perca. A religiosidade é uma das mais fortes fontes de hipocrisia: dentro dela uma maioria esmagadora se camufla, se enruste, sim senhores! E será que a hipocrisia é em defesa da boa moral e dos bons costumes? Eu vi pastores pregando o pecado, excomungando o homossexual, e um deles foi meu homem e minha mulher, aceitou pegar mão na cara. Eu gosto de bater na hora do sexo. Ah, meu desejável pastor, tire esse palitó, esqueça esse personagem, apague esse ar de seriedade e venha ser feliz, pelo menos na cama. Também, um padre lutou comigo na cama, nos preparamos para a batalha do sexo. São tantas histórias, a maioria delas, verdade. Isso não é coisa dos tempos modernos, a história antiga está cheia de exemplos. Os gays, os travestis, os marginais, as bichas e os michês; cada uma dessas vidas se resume
O Meio Não Faz O Homossexual, Apenas O Conduz
A minha vida era um circo, e a luta interna que eu enfrentei não passou de uma lona velha que romperia a qualquer instante. Era uma questão de tempo. Meses. Dias. Quando adolescente, fui coroinha de igreja, nem isso me apagou o fogo, o tesão que eu acumulei como quem acumula dívidas e não encontra como pagar. Ok, também concordo com quem disse: - a minha vida é um pic nic. Eu já tinha resistido a todas as investidas do Márcio. Se fosse para dar um título para esse rapaz, eu escolheria: a ninfa das capoeiras. Uma noite, ele chegou lá em casa, bêbado. Pediu dormida. A mamãe desconfiando ou prevendo alguma investida, trocou o lugar dela dormir com o meu. A noite, ouvi quando ela gritou. O Márcio foi para a cama dela, pensando que fosse eu quem dormia. Ele ficou tão envergonhado que foi imediatamente embora, antes tentou explicar, mas isso não se explica. É contundente. De onde eu dormia tive uma crise de riso. A situação era realmente engraçada. Esse homem não tinha compostura, era um ser que... transava um, dois, três, cinco parceiros de uma só vez. Ele sempre esteve disponível a pessoas desprovidas de qualquer decência. Seu nome sempre estava associado a decadência. E não era para ser assim, um homem que tinha destaque na cidade, tinha boas amizades, um professor. Esse menino desandou de tal forma que... as pessoas se perdem em uma hora ou outra, mas em uma fração de segundos se encontram. Ele não, o caminho de volta estava desfeito e só restava a entrega, o corpo descartável. Quando era preciso pagava para ter o sexo de alguém. A sua vida se estava se resumindo a isso, ele se reduzia a esperma derramada em seu rabo. O casamento foi uma catástrofe, a cidade aconselhou a noiva a não se casar, mas ela estava irredutível. À beira do açude ou nas capoeiras a infidelidade predominava. O Márcio não se importava com o homem, poderia ser limpo ou sujo. Só o sexo tinha valor. Depois que o filho nasceu foi que a esposa não suportou e veio a renunciar a relação, mas até esse dia chegar foram decorridos três anos.
Na verdade, o mundo do sexo sempre me instigou a mergulhar nele. Quem é que pode explicar a emoção de uma prostituta? O viço de um homossexual desesperado? A tara de um hetero? A sexofobia de uma donzela? Isto é cultural. E deveria estar para a sociedade assim como está a experiência da droga... o vício da bebida.
, sim, enquanto o que vem de dentro faz parte de um processo humano. O meio não faz o homossexual, apenas o conduz. É claro que aquele que não tem a vivência de um cinema pornô, não sabe como ele funciona, mas nem por isso deixa de ser. Um cara que nasceu no meio do sertão e se afetara, isso se dá a quê? O processo humano ou a vivência? Dizer que ser homossexual é uma opção é simplesmente ridículo e imbecil. Não é mesmo! Concordo quando o homossexual diz que é homossexual, mas por opção resolveu viver ao lado de uma mulher maritalmente. Agora, qual é o hétero que diz que será homossexual por opção? Isso não existe. Ninguém escolhe o caminho mais difícil. Parece que só a barbárie interessa ao sistema. Esse contexto de progresso pertence a quem? Até quando nos submeteremos a essa desimportante civilização? Sempre. Uma geração é decendente de outra. E há de pagar pelo passado.
Ninguém É Puro Anjo ou Demônio
Quantos homossexuais foram condenados a morte? Quantos povos acusaram seus filhos de reencarnação do diabo? O tempo passou, é hora de reavaliar não saó a sociedade , mas o nosso próprio comportamento.
Nada disso é palavra soprada ao vento. Alguns pontos se cruzam para fortalecer o ponto de partida. Parece que faz muito tempo que as bruxas foram queimadas nas “fogueiras santas.” Tudo isso espelha o agora. Também por outro lado foi preciso o homossexual chocar para ser visto, foi preciso a loucura, a liberação do corpo para se abortar o direito de exercer a sexualidade; mas não precisamos mais agir como se estivêssemos quarenta anos atrás. Não podemos permanecer tão irresponsáveis com nosssas vidas e acharmos que a felicidade vem nas espermas diversificadas que muitos devoram numa semana.
Todos nascem puros e depois se corrompem, mas há quem diga que é feliz, embora para massagear o alter-ego. Em um momento de sobriedade, nenhum noctívago seria desaforado para bater no peito e dizer: - eu tenho orgulho gay! Pode parece cruel o que digo, mas as palavras não doem mais que a mesma verdade. A tendência é crescer o percentual da decadência; as estatísticas visuais apontam isso. O fracasso se instalou entre nós, e tudo poderia ser tão simples; a verdade que deleta. Um amigo sempre diz que o mundo gay é um drama, mas que só tem comédia para contar: - Viado... sofre, mas se diverte com a desgraça dos outros.
, e tudo isso tem o peso da experiência adquirida.
Falo de amores marginais.
Derrotados no Ringue da Paixão
Caio, você é.
Mas era esquisito intransitar o verbo ser. Eu era o quê? Gente, alma sensível. O que as pessoas ditavam? Não sei. Por que as pessoas gostavam de rotular as outras? Só o que faltava era alguém colocar um rótulo em mim, assim como se eu fosse uma garrafa de bebida, a marca de um carro. Fui levado para a cama, não em nome do amor, mas em nome do desejo. Sentei em uma rede que estava armada na sala vazia; o homem se aproximou, sentou na rede também, porém antes perguntou se poderia sentar, passou a mão em minhas pernas, barriga... e me beijou. O bigode me enlouqueceu! Ele era um homem atraente, muito atraente. O meu pênis já tinha saltado da cueca, praticamente perdi a voz, estava trêmulo. Foi uma emoção muito forte, estranha, o primeiro toque na fase terminal da adolescência, primeiro beijo. Só é ruim lembrar depois porque não se consegue mais sentir a mesma sensação. E até conseguimos, no dia que voltar esse desejo de juventude com uma intensidade ímpar. Com o tempo, o corpo parece perder a sensibilidade, mas não é isso; nós é que esquecemos de fazer todas as vezes como se fosse a primeira, a única talvez! Aquele cheiro forte de homem me hipnotizava, mas não me dominava. Se o cheiro dele era enigmático; a minha resistência e o tremor são indiscritíveis. Eu necessitava conhecer toda a língua, todos os adjetivos para não perder o fio condutor daquela hora, onde foder poderia dizer muito, mas não calava a minha estranha certeza de alguma coisa além do mistério que me fazia ceder e recuar. Agora é preciso transportar a linguagem do instinto e obedecer suas expressões. Ele estava de pau duro, eu também. O meu cacete agonizava e pedia clemência na impetuosidade daquele fogo a nos consumir. Impossível esquecer adjetivos pornográficos: o meu pau supapeava de tesão e o meu cú piscava como uma árvore de natal. Em mim, aconteceu um desejo animal, eu sentia um desejo vagabundo e prostituto. Eu não queria, naquela noite, o homem que fizesse sexo com respeito. O meu instinto estava sacana. Estúpido. Assassino e devorador. Eu desejei ver o sexo dos cavalos a comer as éguas nos campos, eu lembrei dos bodes fodendo as cabras, o galo correndo atrás das galinhas, pensei em Tiêta do Agreste perdendo o cabaço, eu vi mil pombas rodopeando em um imenso salão. Eu amava alguém e quando aparece outro para o sexo não tem o mesmo apelo. Não quero, pronto! Veio em mim, a imagem do Téo. Todos os momentos que passamos juntos em um demorado flash back, um filme que tela alguma já viu. Quase choro por não ter tomado a iniciativa. Aquela frase que era totalmente normal um homem ter um amante, mesmo sendo casado, veio como uma bomba que explode e fica em verberação. Ele quis me dizer alguma coisa e eu não me permiti ouvir. Já, naquele apartamento havia dois homens, e eu esperei por isso. um dia cheguei a pensar que era pecado. Eu tive medo do fogo do inferno. Foi isso o que me ensinaram, disseram que todas as prostitutas, os bêbados, os avarentos, os ladrões e os homossexuais tinham por herança o inferno. Agora, não tenho mais medo do fogo do inferno. Esse fogo não deve queimar mais que uma noite de solidão.
Ás vezes, fico pensando nas coisas do mundo, e questiono o homossexualismo: não foi aceito pelo sistema. Faz parte porque agora é maioria. A sociedade teve que conviver, porque não pôde mais ignorar. E só resta aceitar clandestinamente. É a mesma coisa com o negro, com a prostituta, com o deficiente. Enfim, se a humanidade tem uma cruz; os homossexuais e seus adjacentes têm cinco. Por ironia de uma conta bancária não existe puta nos jardins, a puta está na favela.
O próprio homossexual não é porque quer, foi a condição humana que o estruturou assim. “Os prazeres são sempre efêmeros, as alegrias escondem apenas uma realidade que não se desvendou ainda.” – Sábato Magaldi. Mas é preciso ir adiante, ás vezes feito bicho com a alma a sangrar. Cada um à sua dor, cada dor o sonho rompido, cada romper a sangria desatada – a ruptura da couraça. Todos nós, a maioria, somos deuses que se auto fragelam no calvário do desamor, alguns são fênix, outros apenas águias cansadas, perdedoras no vôo do amor, sem destino. Somos romeiros, penitentes de noites eternas de solidão. Paga-se um preço muito alto, também é inegável. Vejo o mundo gay como um labirinto a presidiar carnes inflamadas, porque nós não tivemos estrutura para levar isso como uma coisa natural. Éramos felizes, antes que nos socassem o pecado cérebro adentro. A maioria trafega por ruas sombrias, por bares sorrateiros mendigando o que nem mesmo eles sabem o quê. Tudo na vida é efêmero, mas a vida de um gay é mais. Quase todos perdidos, naufragando noites vazias, insaciados, derrotados no ringue da paixão e machucados com a própria raça.