POR Velazquez Alacoque
“O essencial é invisível aos olhos”. – Pequeno Príncipe.
Nenhuma noite é tão minha quanto esta. A noite que eu me reencontro diante o espelho. E sou o que sou ou o que pude ser. Mas na certeza que a valentia poderia ter sido maior. E será. Algo que eu ainda não sei o que é me pede para brindar sozinho e comigo mesmo a redundância do afirmado. Sim, digo-me isto e ofereço aos meus guardiões a oitava palavra que é a maior. Ofereço assim como em um ritual festivo o meu rosto para a luz que há de ser sempre própria na ousadia do ir bem fundo.
A minha resposta a tua promiscuidade virá com o passar dos anos
Era noite, meio da semana, em uma mesa de bar, fui motivado a escrever sobre essa temática que parece não ter mais nada a ser dito, mas tem. Meu amor disse-me que eu não deveria desistir, que eu não poderia me neutralizar diante essa missão. E eu sei que não tenho obrigação de nada, ou pelo menos não queria mais ter. Então, eu disse que isto não me interessava mais. E em réplica ouvi que desistir era fracassar. Era aniquilar a minha função, que eu precisaria escrever algo que dissesse a que veio. Ficou martelando a idéia do fracasso. Eu estava consciente disso, eu fracassei. E nisso o meu amor tinha razão. Eu estava de saco cheio de tanta coisa, de mim, também. E ao dizer que não tinha mais interesse em escrever, eu parecia mais cansado do que mesmo imparcial. Bom, eis que peguei um ônibus e não consegui sentir raiva. Consegui pensar e me remeti a uma situação ocorrida com Aguinaldo Silva, o autor de novelas. Ele disse que um amigo certa vez o encorajou a escrever de novo, quando ele se dava por vencido. Isto me pareceu interessante, mas entrar novamente nesse mercado, buscar informações necessárias e muitas vezes desnecessárias, não me motivava nem um pouco. Mas eu tinha histórico, boletins de ocorrências, eu tinha PHD para retomar a isto, sem me expor. E por onde começar? Devo folhear e rever meus arquivos mortos e vivos, ativos e inativos. Será que a ciência da sexualidade deve acentuar-se em um livro, quando o cartaz propaga o próximo ponto de encontro? Aqui há um impasse. Em cada esquina o panfleto já traz explicito o fetiche, a indolência do sexo. E me vejo rodeado de anotações, e me perco em labirintos sem saber por onde começar. Então começo pela irrevogabilidade da vontade diante o principio e o verdadeiramente imoral. O que eu venho a dizer terá agora alguma contribuição a dar? Talvez não. Como já disse: a foto dos go go boys, o chamariz e o néon da mais nova boate retratam o apogeu da “liberdade”. Sim, liberdade acentuada em negrito na inverossimilhança da palavra. A estréia do filme de arte é silenciada, a temporada de uma peça de teatro onde a abordagem, social e cultural, se irmana na desenvoltura do intelecto, é vitima do pacto do silêncio, o seminário sobre filosofia e cultura não desperta interesse, toda a intrínseca espiritualidade de Clarice Lispector já não é alcançada pela juventude e geração atual, mas a inauguração da nova boate é o evento da década, mas esta boate ficará em evidência até uma outra ser aberta. Quando inaugurar a nova, ela perderá a importância. Falo de um povo sem histórico, sem tradição cultural ou mesmo tradição amorosa. Mas vou escrever e começo a me apaixonar por esse ideal. Vou romper aqui comigo mesmo, a última receita porque a minha pode não ser a correta. (E me vejo também emaranhado entre macegas, nessa luta desigual que é a simplicidade da qualidade lutar contra o fascínio da quantidade) E digo isso porque sei que “todas as pessoas são livres, livres para serem elas mesmas.” E o corpo é a única propriedade que elas possuem. E cada um sabe como melhor cuidar de si. Cada um sabe melhor cuidar do que é seu. Apesar de eu acreditar que não.
Confesso o cansaço, a luta inútil, penso eu, mas o meu amor diz que a luta, a minha, não é inútil (tenho duvidas!). É hora, ou melhor, tempo de se agregar valores sociais, psicológicos e humanos. Mas do que nunca os empresários do sex fashion, os movimentos e o próprio individuo precisam tragar o cigarro de pano. Ontem mesmo eu disse que as bandeiras não seriam mais hasteadas, as bandeiras da decência, do politicamente, do pudicamente correto. E isto foi dito porque eu sabia que não havia mais ânimo para lutar pela conscientização, eu não acredito mais na boa intenção gay. Toda essa campanha embora individual do censo e da compatibilidade está falida por falta de adeptos. E aqui não estou a fazer isto. Não estou a defender a dignidade, não estou a projetar o cuidado, é melhor que seja assim, todo mundo por si. Estou ainda tentando na singularidade do humano não levantar a bandeira, e sim, estender a mão a um suicida. Suicida aqui representa o nivelamento zero da promiscuidade que é nada mais que um abismo. O nível zero da promiscuidade já é um perigo. O sex fashion é uma sala cheia de balões coloridos pelo chão, e quando se pisa para a eletronicação do corpo, cai-se em um abismo. Este abismo aqui é representado por todos os meus arquivos que são labirintos. O que as pessoas querem? O que cada um vem a querer nessa babilônia sexual?
Este livro deve chamar-se: Francamente.
2 comentários:
Este é o primeiro capítulo do livro?
Nossa "Francamente" me amarrei na primeira leitura... não sou muito de ler, porem vou acompanhar esse blog diáriamenti 24h por dia...
mais uma vez lhe dou meus parabéns pela sua brilhantíssima idéia e estou aqui como seu leitor atento a todas as suas postagens!
até mais ver!
é importantissimo falar francamente sobre nosso comportamento... é claro que ha exceções mas sao raras e escassas. o meio está apodrecido e é preciso catar no meio desse pomar alguma fruta que ainda não se estragou. hoje me percebo cansada sobre o encanto gay. não sei onde está esse encanto. será que sou retardado? tenho pouco alcanc e nao percebo? desculpem-me os afortunados do encanto. eu não vejo mais nenhum brilho numa boate, nem mesmo os holofotes parecem brilhar
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